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Veja o resumo da notícia
- Greve da Caixa entre 10 e 29 de setembro reduziu repasses de financiamentos para Tenda e Cury, e MRV deixou de receber R$ 80 milhões.
- Relatórios do Itaú BBA e BTG Pactual analisam prévias operacionais de incorporadoras, incluindo Moura Dubeux.
- Repasses da Tenda caíram 32% no trimestre, e os cancelamentos de contratos dispararam 115% na marca Tenda.
- Cury registrou cancelamentos de R$ 358 milhões, mas manteve vendas brutas em alta de 17% e fluxo de caixa positivo.
- MRV mudou a contabilidade de vendas do Minha Casa, Minha Vida, dificultando comparações com trimestres anteriores.
- Moura Dubeux teve queda de 22% nas vendas líquidas, atribuída ao calendário de lançamentos no final de setembro.
- Mercado projeta volta gradual das liberações de crédito e queda nas taxas de cancelamento após o fim da greve.

A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal, realizada entre os dias 10 e 29 de setembro, reduziu os repasses de financiamentos de Tenda e Cury e fez a MRV deixar de receber cerca de R$ 80 milhões do banco no terceiro trimestre de 2026.
As informações são de relatórios emitidos pelo Itaú BBA e o BTG Pactual nesta sexta-feira (9). Eles analisam os números das prévias operacionais divulgadas pelas incorporadoras na quinta-feira (8). Além das três empresas citadas acima, os textos dos bancos também analisam as contas da Moura Dubeux.
A Tenda repassou R$ 765 milhões a bancos no trimestre, queda de 32% sobre o mesmo período de 2025, e os repasses de setembro caíram 51% em relação a agosto. A Cury transferiu R$ 1,3 bilhão à Caixa, 13% a menos que um ano antes e 36% abaixo do trimestre anterior. Quando a etapa do repasse para, o dinheiro das vendas já feitas deixa de entrar no caixa das empresas.
Em nota emitida no dia 2, a Caixa Econômica Federal informou que suas agências retomaram o atendimento presencial em 30 de setembro e sustentou que as contratações de crédito imobiliário seguiram disponíveis durante o período de greve, apoiadas em canais remotos e na rede de correspondentes bancários.
A instituição acrescentou que avaliou casos específicos conforme a etapa de cada operação e adotou medidas de contingência para mitigar a paralisação. A Caixa, no entanto, não informou o total de operações que ficaram pendentes ou atrasadas durante a greve.
Como a greve chegou ao caixa das empresas
O repasse é a etapa em que o financiamento do comprador é transferido ao banco, que paga a incorporadora. A transferência desses recebíveis (que são os valores devidos pelas pessoas que adquirem os imóveis) para o banco financiador foi paralisada com o fechamento de agências e centrais de crédito da Caixa na maior parte do mês de setembro.
Embora as incorporadoras tenham mantido o ritmo de vendas, o dinheiro dos novos contratos não entrou nos balanços do trimestre.
A MRV foi a companhia em que o efeito financeiro apareceu isolado nominalmente em reais.
“O MCMV registrou queima de caixa refletindo amplamente o impacto da greve da CEF durante o trimestre […] queima de caixa de R$ 2 milhões no MCMV (impactada por R$ 80 milhões em recebíveis que a companhia não recebeu da CEF durante a greve em setembro)”
Elvis Credendio, Mariangela Castro e Juliana Veiga, analistas do Itaú BBA
O BTG Pactual calculou o mesmo represamento e lembrou que o resultado da construtora já viria abaixo do esperado. “O dado fraco de fluxo de caixa livre (FCF) no negócio de MCMV foi impactado pela greve da CEF em setembro (impacto de ~R$ 80 milhões), mas acreditamos que ele ainda teria ficado abaixo do esperado mesmo ajustando por esse efeito não recorrente (estávamos esperando cerca de R$ 150 milhões vindos das operações de baixa renda)”, escrevem Gustavo Cambauva e Gustavo Fabris, do BTG Pactual.
O caixa da MRV fechou o trimestre no positivo em R$ 435 milhões. Mas o Itaú BBA alerta que essa conta só fechou devido à venda de projetos de imobiliários de duas de suas subsidiárias, a Luggo (R$ 146 milhões) e a Resia (R$ 273 milhões), e não pelo dinheiro vindo da construção de casas populares.
Tenda: repasses em queda e cancelamentos em alta
A Tenda concluiu o repasse de 4.000 imóveis a bancos no terceiro trimestre. Segundo o Itaú BBA, R$ 729 milhões vieram das operações tradicionais da marca Tenda (uma queda de 25% na comparação anual) e R$ 36 milhões da fábrica de casas Alea (recuo de 75%), mostrando o tamanho da trava nos bancos.
“As transferências de recebíveis foram impactadas pela greve da CEF. A companhia transferiu 4 mil unidades aos bancos (‘repasses’), totalizando R$ 765 milhões (-32% a/a), refletindo em grande parte o impacto da greve da CEF em setembro, quando as transferências recuaram 51% em relação a agosto”
Elvis Credendio, Mariangela Castro e Juliana Veiga, analistas do Itaú BBA
Em paralelo, os cancelamentos de contratos dispararam. Na marca Tenda, os distratos somaram R$ 293 milhões pelas contas do Itaú BBA, alta de 115% em doze meses, engolindo 19,4% das vendas brutas (contra 12,5% no trimestre anterior).
O BTG Pactual calculou R$ 312 milhões em cancelamentos totais na empresa, alta de 78% no ano. Os analistas ligam esse salto tanto aos atrasos provocados pela paralisação quanto ao aperto nas regras de crédito da Caixa.
“Os resultados foram fracos (como esperado), refletindo um cenário mais difícil para o MCMV no 3T (condições de crédito mais restritivas na CEF e a greve do banco em setembro)… Acreditamos que o cenário deve permanecer mais desafiador no curto prazo (refletindo a redução de preços de venda pela Tenda, menor ‘pró-soluto’ e cancelamentos mais elevados)…”
Gustavo Cambauva e Gustavo Fabris, analistas do BTG Pactual
Para se adaptar às exigências da Caixa, a Tenda reduziu o pró-soluto, que funciona como um crédito direto aos clientes, uma fatia do imóvel financiada pela própria empresa sem garantia bancária, de 10% para 7%.
Segundo o Itaú BBA, essa mudança contratual derruba o preço médio de venda e encolhe os lucros dos novos lançamentos. No período, as vendas líquidas da Tenda somaram R$ 1,21 bilhão (alta de 10,5%), ficando abaixo do esperado pelo mercado.
Cury: vendas firmes e caixa no positivo apesar dos cancelamentos
Na Cury, os cancelamentos somaram R$ 358 milhões, um salto de 60% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Itaú BBA. O BTG Pactual dá número parecido, de 59%. Sendo um ou outro, isso corroeu 15% das vendas brutas, contra 8% no trimestre anterior e 11% no mesmo período de 2025.
“Os cancelamentos foram elevados devido à greve da CEF, mas as vendas líquidas permaneceram sólidas […] os cancelamentos aumentaram 60% a/a para R$ 358 milhões, o equivalente a 15% das vendas brutas (contra 8% no 2T26 e 11% no 3T25), impactados pela greve da CEF (compradores tornando-se inelegíveis e/ou desistindo das compras devido aos atrasos nas transferências de recebíveis) e pelo processo de aprovação de financiamento mais restritivo implementado pela CEF (incluindo entrevistas, menores taxas de aprovação para trabalhadores informais, etc.)
Elvis Credendio, Mariangela Castro e Juliana Veiga, analistas do Itaú BBA
Mesmo com a disparada nos cancelamentos, a Cury segurou resultados operacionais fortes. As vendas brutas bateram R$ 2,39 bilhões, numa alta de 17%, e as vendas líquidas avançaram 11,4%, chegando a R$ 2,03 bilhões. Já a velocidade de vendas (VSO) encerrou o período em 39,7%, ante 40,4% no trimestre anterior.
A produção da empresa foi de 6,3 mil unidades (avanço de 28%) e ela fechou o trimestre com R$ 254 milhões de fluxo de caixa livre.
“Apesar das aprovações de crédito mais restritivas e da greve da CEF ao longo de setembro, a Cury reportou uma expressiva geração de FCF de R$ 254 milhões no 3T (acima da nossa estimativa de R$ 200 milhões), implicando um rendimento anualizado de FCF [Fluxo de Caixa Livre] de 10%. Acreditamos que esse resultado reforça o controle rigoroso das operações da companhia e seu modelo de negócios enxuto, mesmo em meio a um cenário mais desafiador para o setor”
Gustavo Cambauva e Gustavo Fabris, analistas do BTG Pactual
MRV: mudança na contabilidade trava comparação das vendas
No terceiro trimestre, a MRV mudou a forma de contabilizar as vendas do programa Minha Casa, Minha Vida. Antes, a construtora só registrava a venda depois que o financiamento passava definitivamente para o banco. Agora, passa a contabilizar assim que o contrato é assinado, como já fazem as concorrentes.
O Itaú BBA analisa que a mudança influenciou os números divulgados e impediu a comparação direta com os trimestres anteriores e com as projeções do mercado. Com a nova regra, as operações da MRV no Brasil somaram R$ 3,2 bilhões em vendas líquidas, numa alta de 33% no ano, e ritmo de vendas avançou 26,7%.
Moura Dubeux: desaceleração se deve ao calendário de lançamentos
As análises de mercado sobre a Moura Dubeux não colocam a culpa dos resultados do terceiro trimestre na greve da Caixa. A empresa teve vendas líquidas de R$ 841 milhões, queda de 22% no comparativo anual, com velocidade de vendas estimada em 16,6% pelo Itaú BBA e em 15% pelo BTG Pactual.
Os relatórios dos bancos apontam que essa queda ocorreu devido ao calendário de lançamentos, já que 40% de todos os projetos apresentados foram lançados só na última semana de setembro, com pouca margem para vendas até o fechamento do mês.
O consumo de caixa de R$ 170 milhões no período refletiu o andamento das obras e, principalmente, a compra à vista de um terreno em Salvador por R$ 97 milhões.
O que o mercado projeta para o setor
Com o fim da greve dos bancários no final de setembro, as instituições preveem a volta gradual das liberações de crédito e a queda nas taxas de cancelamento.
A própria Tenda informou que o ritmo de vendas acelerou mês a mês durante o terceiro trimestre, passando de 1,95 mil unidades em julho para 2,07 mil em agosto e 2,44 mil em setembro.
“Mais importante, a Tenda destacou que as vendas brutas em unidades aumentaram sequencialmente ao longo do 3T26 e, com o término da greve da CEF, os cancelamentos devem se normalizar daqui para frente”
Elvis Credendio, Mariangela Castro e Juliana Veiga, analistas do Itaú BBA
Para além do susto temporário da paralisação, os analistas dos dois bancos ressaltam que o futuro das construtoras de baixa renda vai depender das regras de crédito fixadas pela Caixa e da capacidade das empresas em manter suas margens de lucro com financiamentos mais rígidos.
Prévia operacional antecede balanço
A prévia operacional é uma divulgação feita por empresas de capital aberto antes da publicação dos resultados trimestrais.
No mercado imobiliário, ela costuma trazer dados como lançamentos, vendas brutas e líquidas, repasses e entregas de unidades. Essas informações ajudam investidores e analistas a entender como foi o desempenho das empresas no período, antes de conhecer os números financeiros completos.
A prévia, porém, não mostra o resultado final do trimestre. As contas completas das empresas listadas na bolsa, tais como indicadores de receita líquida, margens, lucro e resultado financeiro são apresentados posteriormente, nas demonstrações financeiras.
Além disso, as empresas costumam realizar teleconferências com investidores e analistas para explicar os resultados, comentar o desempenho do trimestre e responder a perguntas.








