Veja o resumo da notícia
- O Programa Reforma Casa Brasil liberou R$ 2,7 bilhões em crédito até julho, o que representa apenas 6,7% do orçamento total de R$ 40 bilhões.
- O governo flexibilizou as condições do programa em maio, elevando o limite de renda familiar e reduzindo a taxa mínima de juros.
- A indústria de materiais de construção cortou a projeção de crescimento para 2026, de 1,9% para 0,5%, devido ao baixo desempenho do programa.
- O alto endividamento das famílias e o aumento dos preços dos materiais limitam a reação do mercado, levando a reformas em etapas.
- Lojistas expressam preocupação com a ausência de exigência de nota fiscal, temendo que parte dos recursos seja desviada para outros fins.

O Programa Reforma Casa Brasil avançou menos do que o setor de materiais de construção esperava, segundo reportagem do Estadão. Lançada em outubro do ano passado, a iniciativa oferece empréstimos com juros reduzidos para reformas e melhorias em moradias, incluindo materiais, mão de obra, projetos e acompanhamento técnico.
Até 16 de julho, a concessão de crédito somava R$ 2,7 bilhões, apenas 6,7% do orçamento total de R$ 40 bilhões, segundo o Ministério das Cidades. Foram 117,3 mil contratos, com valor médio de R$ 23,4 mil por operação. Do total, 53,45% atenderam famílias com renda de até R$ 3,2 mil.
Mudanças tentam acelerar contratações
Apesar do desempenho abaixo do esperado, houve aceleração recente. O volume atual é o dobro do registrado até maio, quando o programa havia liberado R$ 1,3 bilhão.
Depois de constatar a baixa adesão, o governo flexibilizou as condições em maio. O limite de renda familiar subiu de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil, a taxa mínima caiu de 1,17% para 0,99% ao mês e o prazo máximo de financiamento passou de 60 para 72 meses.
O Ministério das Cidades afirmou que o programa tem alcançado efeitos desejáveis até o momento e segue em monitoramento contínuo para ajustar metas e assegurar o cumprimento dos objetivos sociais.
Indústria corta projeção de crescimento
No setor empresarial, o diagnóstico é mais cauteloso. As vendas da indústria de materiais caíram 3,4% no primeiro semestre frente ao mesmo período do ano anterior. Com isso, a Abramat reduziu a projeção de crescimento para 2026, de 1,9% para 0,5%.
A associação atribui a revisão à Selic em 14,25% ao ano, ao alto endividamento das famílias e ao desempenho abaixo do esperado do Reforma Casa Brasil. Para Mauro Franco, presidente da Abramat, a nova projeção ajusta as expectativas às condições observadas no primeiro semestre.
Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção na FGV, também avalia que o programa ainda não deslanchou. Segundo ela, as taxas de juros iniciais estavam elevadas e há uma curva de aprendizado após a implantação, o que explica parte dos ajustes.
Famílias reformam em etapas
O orçamento apertado das famílias limita a reação do mercado. Ana Maria Castelo lembra que endividamento elevado e aumento dos preços de materiais, agravado por tensões geopolíticas em março e abril, minaram a capacidade de compra.
Entre lojistas, a percepção é semelhante. Cássio Tucunduva, presidente da Anamaco, afirma que as famílias passaram a reformar em parcelas: em um momento instalam revestimento; depois, quando recuperam fôlego financeiro, fazem pintura.
Dados da Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE mostram queda de 1% no volume vendido pelos varejistas de materiais nos cinco primeiros meses do ano, enquanto o faturamento nominal subiu 2,6%. Para Tucunduva, o aumento de receita não compensou a inflação e o setor vive, na melhor hipótese, um empate técnico.
Desvio do crédito preocupa lojistas
A Anamaco também critica a ausência de exigência de nota fiscal na compra de materiais. Basta o tomador mostrar fotos do antes e depois da reforma.
Para Tucunduva, essa brecha pode permitir que parte dos recursos seja usada para outros fins, como apostas ou pagamento de dívidas. A entidade diz já ter alertado o governo de que o dinheiro não estaria chegando integralmente ao varejo de materiais de construção.
*Com informações de Estadão







