pessoa analisando planejamento financeiro
Crédito: lovelyday12/iStock

Você provavelmente já disse ou já ouviu de alguém próximo: não compro meu imóvel por causa dos juros. Ou por causa do governo. Ou porque a renda não dá.

Em grandes números, como se diz na estatística, essas frases descrevem algo real. Quando analisamos o comportamento de milhões de pessoas, taxa de juros, renda e a política econômica que move o mercado, sim. Mas esta coluna não é sobre milhões de pessoas. É sobre você.

E no plano individual, cabe a pergunta incômoda: essas explicações são diagnóstico ou desculpa para si mesmo?

O que os grandes números dizem, e o que não dizem sobre você

Comecemos pelo cenário. A taxa de desemprego no Brasil está em 5,6%, a menor da série histórica iniciada em 2012. E desemprego, vale lembrar, é a variável que mais machuca o mercado imobiliário, muito mais que a Selic. Quem tem emprego e horizonte de renda tem condições de planejar.

O brasileiro conta ainda com um conjunto de condições que poucos países oferecem. Temos saúde pública e universidades públicas gratuitas, o que libera espaço no orçamento familiar que em outras culturas está comprometido. O americano médio, por exemplo, poupa dividido entre o plano de saúde e a faculdade dos filhos, custos que para nós são amortecidos pelo Estado. Temos um programa habitacional que hoje alcança a classe média: a Faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida atende famílias com renda de até R$ 13 mil e financia imóveis de até R$ 600 mil. E temos a alienação fiduciária, o arranjo jurídico que deu segurança ao crédito imobiliário brasileiro e permitiu financiamentos mais longos e mais baratos do que os de outras épocas.

O cenário, portanto, explica parte da hesitação. Não explica tudo.

O espelho incômodo da poupança

O que os dados sugerem é que nosso problema menos discutido não está na taxa de juros. Está na ausência de uma cultura de poupança de longo prazo.

Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima com o Datafolha, apenas 33% dos brasileiros conseguiram poupar em 2025. Quase um terço da população, 31%, não tem nenhuma reserva para imprevistos. E entre quem tem, 43% consumiriam tudo em até seis meses.

O dado mais revelador, porém, é outro: entre os que conseguiram economizar, apenas 7% destinaram o dinheiro à compra de um imóvel. O sonho da casa própria segue vivo no discurso, mas quase não aparece no orçamento.

Aqui é preciso honestidade analítica. Renda importa, e muito, na capacidade agregada de poupar. Mas poupança, no plano individual, é menos aritmética e mais hábito. Quem ganha cem reais pode guardar dez. Quem ganha um milhão pode não guardar nada. Culturas que celebrizaram a poupança de longo prazo, de tradições asiáticas a certos países europeus, não a construíram sobre rendas altas, e sim sobre disciplina intergeracional. Nós, brasileiros, moldados por décadas de inflação que puniam quem guardava dinheiro, aprendemos a gastar rápido. A inflação foi domada há trinta anos. O reflexo, não.

Há, contudo, um sinal de mudança que merece registro: a mesma pesquisa mostra que a parcela que separa parte do salário todo mês dobrou em cinco anos, de 11% para 20%. O músculo existe. Falta direcioná-lo.

Os caminhos existem, e milhões já os usam

A boa notícia é que há uma contraprova viva de que o caminho existe. Em plena Selic elevada, o consórcio de imóveis registrou 1,35 milhão de adesões em 2025, crescimento de 36% sobre o ano anterior, respondendo por mais da metade de todo o crédito contratado no sistema de consórcios. Milhões de brasileiros escolheram, voluntariamente, um mecanismo de poupança forçada.

E o consórcio não é o único instrumento. O imóvel na planta funciona como disciplina de poupança durante a obra, mesmo que não seja o imóvel dos sonhos: pode ser o imóvel que, vendido ou alugado lá na frente, financia o definitivo. O imóvel comprado para renda de locação é outra porta de entrada ao patrimônio que costuma ser ignorada, transformando o aluguel, tantas vezes tratado como vilão, em aliado do comprador paciente. O FGTS pode compor a entrada ou amortizar o saldo. O home equity permite destravar recursos de um imóvel já quitado para viabilizar o próximo passo.

E para quem teme os juros de hoje, existe a portabilidade do financiamento: compra-se o imóvel no preço de hoje e renegocia-se a taxa amanhã. Ninguém financia um imóvel para os próximos seis meses da Selic, e sim para vinte ou trinta anos, horizonte em que os ciclos de juros tendem a se alternar.

A pergunta que fica

Nada disso significa que comprar um imóvel seja fácil, nem que as barreiras estruturais sejam invenção. Para muitas famílias, elas são reais e pesadas, e nenhuma disciplina individual substitui políticas consistentes de renda, crédito e habitação.

Mas entre o cenário e a sua decisão existe um espaço que só você controla: o hábito de poupar com um objetivo de longo prazo. Os instrumentos estão na mesa. Os números mostram que uma parcela crescente de brasileiros já os utiliza.

Talvez a pergunta honesta não seja se o país permite que você compre seu imóvel. Talvez seja outra: do que você está disposto ou disposta a abrir mão no seu dia a dia para conseguir comprar seu imóvel?

Daniel Claudino
Daniel Claudino

Claudino é especialista e analista do mercado imobiliário, com aproximadamente 20 anos de atuação no setor. Atua como curador de eventos que conectam especialistas e agentes do mercado em diferentes regiões do Brasil, promovendo formação, análise crítica e inovação. É também sócio da Área 38 e conselheiro estratégico das empresas Aluu, Tikpag, Pipeimob e Squad Realty. Na Loft, atua como consultor com foco em inteligência comercial, integração institucional e performance de produtos. É autor dos livros “A Natureza do Mercado Imobiliário” e “Ontem, Hoje e Amanhã”, obras que propõem uma leitura ampliada e multidisciplinar sobre a moradia, o urbanismo e a evolução dos sistemas imobiliários. Atualmente, Claudino está radicado em Toronto, no Canadá, onde segue colaborando com iniciativas que antecipam o futuro do setor com consistência técnica, visão crítica e sensibilidade prática.

Claudino é especialista e analista do mercado imobiliário, com aproximadamente 20 anos de atuação no setor. Atua como curador de eventos que conectam especialistas e agentes do mercado em diferentes regiões do Brasil, promovendo formação, análise crítica e inovação. É também sócio da Área 38 e conselheiro estratégico das empresas Aluu, Tikpag, Pipeimob e Squad Realty. Na Loft, atua como consultor com foco em inteligência comercial, integração institucional e performance de produtos. É autor dos livros “A Natureza do Mercado Imobiliário” e “Ontem, Hoje e Amanhã”, obras que propõem uma leitura ampliada e multidisciplinar sobre a moradia, o urbanismo e a evolução dos sistemas imobiliários. Atualmente, Claudino está radicado em Toronto, no Canadá, onde segue colaborando com iniciativas que antecipam o futuro do setor com consistência técnica, visão crítica e sensibilidade prática.