Veja o resumo da notícia
- Medida Provisória 1.394 proíbe apostas de quota fixa, incluindo esportivas e cassinos virtuais, com sites saindo do ar em 6 de outubro.
- Brasileiros gastam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês com apostas, impactando o pagamento de aluguéis e financiamentos.
- Pesquisa da Loft revela que 13% dos inquilinos apostadores atrasaram ou deixaram de pagar aluguel devido às apostas.
- Levantamento do Sicredi aponta inadimplência 40% maior entre apostadores, afetando a análise de crédito para casa própria.
- A proibição não elimina a demanda por apostas, com projeção de 38% a 44% das apostas migrando para plataformas clandestinas.
- A saída de anunciantes de apostas pode aliviar a disputa por espaço em mídia digital, beneficiando imobiliárias e corretores.
- Imóveis podem seguir como destino para ocultar recursos em lavagem de dinheiro, reforçando o papel de imobiliárias na comunicação ao Coaf.
- A União arrecadou R$ 9,91 bilhões com tributação de casas de apostas entre janeiro e agosto de 2026, com licenças a serem extintas.

Esta é uma coluna sobre mercado imobiliário, então a pergunta aqui não é se as apostas online devem ou não existir. A pergunta é outra: o que o dinheiro que ia para as apostas tem a ver com o aluguel, com o financiamento da casa própria e com quem trabalha no setor? Os dados sugerem que tem mais a ver do que parece.
A Medida Provisória 1.394, publicada em edição extra do Diário Oficial da União em 25 de setembro, proibiu em todo o país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa. A regra alcança apostas esportivas e jogos online, como os cassinos virtuais, inclusive em plataformas sediadas no exterior. As demais loterias autorizadas por lei ficam de fora. Novos depósitos já estão vetados, os sites devem sair do ar em 6 de outubro e os saldos dos apostadores serão devolvidos pelos bancos até 14 de outubro, sem necessidade de pedido. Por ser uma MP, a regra vale desde já, mas perde a validade se não for votada pelo Congresso Nacional em até 120 dias. O prazo não corre durante o recesso, e os presidentes da Câmara e do Senado ainda não reuniram os líderes para definir a tramitação, o que deve acontecer só depois do primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. Na prática, a votação pode ficar para o início de 2027.
Vale lembrar que o Brasil tem uma relação antiga e ambígua com o jogo. O jogo do bicho é uma contravenção penal desde 1941 e nunca deixou de circular. Os cassinos foram fechados por decreto em 1946, numa decisão que a história costuma associar à influência religiosa da então primeira-dama. Os bingos foram autorizados nos anos 1990 e proibidos em 2004. Em 2018, uma lei criou as apostas esportivas de quota fixa (aquelas em que o apostador sabe, no momento da aposta, quanto vai ganhar) e deu prazo de até quatro anos para a regulamentação. O prazo venceu sem regras, e o setor cresceu num vácuo regulatório, com empresas operando a partir do exterior. A regulamentação só veio no fim de 2023, e o mercado regulado passou a funcionar em 2025, com cada empresa autorizada pagando R$ 30 milhões de outorga. Menos de dois anos depois, o país volta a proibir.
O aluguel sente primeiro
A dimensão do fluxo ajuda a entender o impacto. Segundo o Banco Central, em depoimento à CPI das Apostas no Senado, os brasileiros gastam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês com apostas. Em estudo anterior, o BC identificou que, em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas de famílias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas via Pix — um tema que o setor imobiliário já vinha discutindo (veja cobertura anterior do Portas).
Dinheiro que vai para a aposta deixa de ir para alguma outra conta. No mercado de locação, essa outra conta tende a ser o aluguel. Uma pesquisa da Loft, em parceria com a Offerwise, ouviu 1,3 mil inquilinos entre setembro e outubro de 2025. Entre os entrevistados que apostam, 13% disseram ter atrasado ou deixado de pagar o aluguel diretamente por causa das apostas. Outros 10% relataram dificuldade para pagar, sem chegar ao atraso.
A pesquisa da Loft também fez uma pergunta mais ampla: se o entrevistado já atrasou o aluguel por causa de apostas ou conhece alguém que atrasou. No total, 31% responderam que sim — no mesmo patamar do que a Loft já havia identificado entre inquilinos gaúchos e, de forma ainda mais acentuada, no Rio de Janeiro. Entre os inquilinos de 18 a 24 anos, o índice chega a 36%. O número parece alto e precisa ser lido com cuidado: ele soma experiência própria e relato sobre terceiros, formato usado justamente para reduzir o constrangimento de admitir a dívida. Mede a proximidade do problema, não a inadimplência de cada entrevistado. Ainda assim, indica que os mais jovens convivem com ele mais de perto.
Fábio Takahashi, gerente de dados da Loft, faz uma ressalva importante: a perda de renda da população também pesa no atraso do aluguel, e as apostas aparecem como um fator novo que agrava o quadro, não como causa única. Por isso, trata-se de um dado declarado pelos entrevistados, não de uma medição de contratos, e deve ser lido assim.
Há um sinal convergente vindo do crédito. Um levantamento do Sicredi com 1,3 milhão de associados, apresentado ao Banco Central, encontrou inadimplência 40% maior entre quem apostou ao longo de 2025, em comparação com quem não apostou. O índice sobe conforme aumentam a frequência e o volume apostado.
Do aluguel ao financiamento
O efeito não para no inquilino. Ele chega à porta de entrada da casa própria, que é a análise de crédito. Na CPI, o presidente do Banco Central afirmou que apostadores tendem a ter avaliação de crédito pior e que esse comportamento já entrou no score usado pelos bancos para precificar risco (o score é a nota que resume o risco de inadimplência de cada cliente).
No segmento econômico, o relato de mercado vai na mesma direção. Em reportagem do Imobi Report, um executivo de incorporadora afirmou que a Caixa consegue identificar, na movimentação bancária de candidatos ao Minha Casa, Minha Vida, pagamentos frequentes a plataformas de apostas, e usa isso como critério de risco. Vale a cautela: é um relato do setor, não uma regra divulgada pelo banco, e não existe norma pública que reprove automaticamente quem usa bets. O que pesa é o conjunto: renda comprometida, dívidas e atrasos.
Para incorporadoras do econômico, corretores e correspondentes bancários, a consequência prática é concreta. Um cliente com renda compatível pode ter o crédito reduzido ou negado por causa do que fez com essa renda nos meses anteriores. Isso alonga a jornada de compra e aumenta o número de negócios que não fecham.
Proibir resolve?
Aqui a análise pede mais humildade. A proibição não elimina a demanda por apostas, como o jogo do bicho mostra há mais de oito décadas. Mesmo com o mercado regulado em funcionamento, um estudo da LCA Consultores, feito a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (entidade ligada às operadoras) com base em pesquisa do Instituto Locomotiva, estima que entre 38% e 44% das apostas online já ocorriam em plataformas clandestinas. É uma projeção construída a partir de respostas de apostadores, não uma medição direta. Segundo a mesma pesquisa, 37% dos apostadores expostos ao mercado informal depositaram via cartão de crédito e 23% via criptoativos, meios proibidos no ambiente regulado.
Se parte relevante da demanda migrar para o mercado ilegal, o dinheiro pode continuar saindo do orçamento das famílias, só que com menos rastreabilidade. Para o banco que avalia um financiamento, uma aposta em plataforma clandestina paga com cartão ou cripto pode ser mais difícil de enxergar do que um Pix para uma empresa autorizada.
Dois efeitos laterais merecem menção. O primeiro é a publicidade. A MP proíbe propaganda, marketing e patrocínio de apostas, com prazo de dez dias para a retirada do material já veiculado. Segundo a Kantar Ibope Media, jogos e apostas foi o setor que mais ampliou o investimento em mídia entre 2023 e 2024, com alta de 47%, e só na cidade de São Paulo as bets investiram R$ 422 milhões em mídia exterior entre janeiro de 2025 e junho de 2026. É razoável supor que a saída de um anunciante desse porte alivie a disputa por espaço em mídia digital e exterior, o que beneficiaria imobiliárias e corretores que compram anúncios. Mas não há, até aqui, dado auditado que meça esse efeito sobre o custo de anunciar imóveis.
O segundo é a lavagem de dinheiro. Operações recentes da Polícia Federal contra plataformas ilegais envolveram o sequestro de imóveis e veículos de luxo. Com um mercado mais clandestino, o imóvel tende a seguir como destino possível para ocultar recursos, o que reforça o papel de imobiliárias e corretores, já obrigados pela Lei 9.613/1998 a comunicar operações suspeitas ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
Há ainda o lado fiscal. Segundo a Receita Federal, a União arrecadou R$ 9,91 bilhões com a tributação das casas de apostas entre janeiro e agosto de 2026. Pelo texto da MP, as licenças concedidas serão extintas em 30 dias, sem direito a indenização às empresas. A Associação Nacional de Jogos e Loterias e o Instituto Brasileiro do Jogo Responsável preparam uma ação conjunta no Supremo Tribunal Federal, com pedido de liminar, e prometem cobrar a outorga de R$ 30 milhões paga por cada empresa.
O que dá para afirmar e o que não dá
Os dados disponíveis permitem dizer que as apostas vinham disputando espaço com o aluguel e com a capacidade de crédito de parte das famílias, em especial das mais jovens e de menor renda. Não permitem dizer quanto da inadimplência imobiliária se explica pelas apostas, nem prever se a proibição devolverá esse dinheiro ao orçamento ou apenas o empurrará para a clandestinidade. O resultado dependerá do texto que sobreviver ao Congresso, da capacidade de fiscalização e do comportamento de quem aposta.
Se o dinheiro das apostas voltar ao bolso das famílias, ele vai para o aluguel e para a entrada da casa própria, ou encontra outro caminho?
Resumo: o que pesa em cada efeito da proibição
| Elemento em jogo | O que pesa na resposta |
|---|---|
| A proibição reduz a inadimplência no aluguel? | Depende de quanto da demanda migra para o mercado ilegal, da evolução da renda das famílias e da permanência da MP no Congresso. |
| O crédito imobiliário fica mais acessível? | Depende de os bancos continuarem enxergando os gastos com apostas, do histórico recente de cada cliente e da política de risco de cada instituição. |
| A mídia fica mais barata para o setor imobiliário? | Depende das regras de publicidade na MP, de quem ocupa o espaço deixado pelas bets e do canal (digital, TV ou mídia exterior). |
| O risco de lavagem via imóveis aumenta? | Depende do tamanho do mercado clandestino, da capacidade de fiscalização e da qualidade das comunicações ao Coaf. |







