
Nem o impulso recorde do Minha Casa Minha Vida em 2025 abalou a preferência do brasileiro por um velho conhecido. No ano passado, 1,35 milhão de brasileiros compraram uma cota de consórcio de imóvel, um crescimento de 36% em relação a 2024 e a maior expansão desde pelo menos 2015, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac).
Por um lado, o setor afirma que essa é uma opção interessante para pessoas que têm pouca disciplina para poupar, já que mensalmente é preciso pagar uma cota de valor fixo. Mas, por outro lado, especialistas afirmam que há opções de igual risco e maior rentabilidade para juntar dinheiro e comprar a casa própria (veja mais abaixo).
Criado há 35 anos, o consórcio de imóvel tem um apelo quase perene que pode ser explicado pela facilidade de compreensão do produto, uma espécie de poupança forçada. Ao fim de 2025, eram 2,8 milhões de participantes ativos neste segmento de consórcio. Em termos absolutos, o segmento de imóvel é o terceiro com mais participantes, ficando atrás de veículos leves e motos.
Em 2025, as contemplações de consórcio de imóvel cresceram 26%, o maior índice entre todas as categorias. O dado é um indicativo de que quem já estava em um consórcio, ou entrou no ano passado, estava disposto a fazer lances competitivos. Ao todo, foram colocados no mercado, via consórcio, R$ 30 bilhões para aquisição da casa própria, quase 40% a mais do que em 2024.
“Está entrando muito investidor no consórcio de imóvel. É um perfil um pouco diferente daquele que vai comprar a casa própria. Esse público adota outras estratégias, como comprar cartas pequenas para ter mais imóveis, na ideia de usar o rendimento de um imóvel para pagar o outro”, afirma Luiz Antônio Barbagallo, economista da Abac.
Em 2026, o consórcio de imóvel segue em alta. Em janeiro, a venda de cotas aumentou em 22,4%, com acréscimo de pouco mais de 122 mil pessoas físicas ou jurídicas. Com Copa do Mundo e eleições, no entanto, o resultado mais provável no acumulado do ano é uma desaceleração do crescimento, de 36% para 25%, segundo a Abac, o que representa uma expansão mais em linha com a média dos últimos anos.
Entenda abaixo como funciona o consórcio e como calcular se o produto é vantajoso
Como funciona um consórcio
O consórcio é uma herança do período em que o crédito para compra de bens no Brasil era mais caro e restrito do que hoje. O segmento de imóveis foi autorizado a funcionar oficialmente em 1990, com a publicação da Portaria 028/1990 da Receita Federal. Para outros bens, a modalidade é regulamentada desde os anos 1960.
A modalidade funciona como uma reunião de poupadores, que todos os meses pagam um valor fixo. Essa quantia vai para um fundo, que vai custear cada contemplação de crédito para aquisição de um imóvel.
Há duas maneiras de conseguir a carta de crédito antes do fim do prazo de um consórcio: por sorteio ou lance, ambos realizados mensalmente. Confira:
- Sorteio: todos os participantes em dia com as prestações concorrem em igualdade, conforme regras estabelecidas em contrato.
- Lance: o participante interessado em antecipar a contemplação pode fazer uma oferta no valor que desejar. Se superar as demais, ganha o direito de utilizar o crédito
- O consorciado só paga o valor ofertado no lance se for contemplado. A quantia é descontada do seu saldo devedor, uma vez que o lance é uma antecipação de prestações
- Para fazer um lance, vale estudar o histórico do consórcio. Em muitos casos, propostas competitivas ficam em torno de 30% a 50% do valor total do consórcio
- Também é possível usar o FGTS para fazer um lance. A administradora do consórcio deve ser avisada anteriormente e o extrato do FGTS precisa ser apresentado. Vale entender a regra específica de uso do FGTS do consórcio adquirido
- Custos: todo consórcio tem uma taxa de administração (0,073% ao mês, em média, segundo a Abac) e pode haver cobranças extras, como seguro e fundo de reserva, uma proteção contra inadimplência dos participantes
- Considere que o custo total do imóvel é composto por todas as taxas do consórcio e o eventual lance. Este é o valor mais adequado para comparar com o financiamento tradicional ou alguma estratégia de investimento
Consórcio de imóvel vale a pena?
Comprar um consórcio equivale a criar uma obrigação mensal de poupar para adquirir um imóvel ou levantar o valor de entrada. “Muitas vezes a pessoa não tem esse hábito de poupar dinheiro e encontra no consórcio uma maneira de fazer isso – mas o consórcio não é um investimento, é uma modalidade de compra”, afirma a planejadora financeira Yolanda Fordelone.
Segundo ela, é preciso ponderar o seguinte cenário: se o comprador ainda não tem o valor de entrada para determinado imóvel, também é provável que não consiga dar um lance competitivo no curto prazo. E mais: o tíquete médio de uma carta de consórcio em 2025 ficou em torno de R$ 200 mil, valor suficiente apenas para a entrada nas regiões com maior custo do metro quadrado, como as capitais.
Esse aspecto se torna relevante considerando o prazo médio de um consórcio, de 207 meses ou pouco mais de 17 anos, segundo a Abac. “A contemplação pode acontecer antes, já ouvi relatos de 6 ou 7 anos, em média. Se o comprador substituir o valor da parcela do consórcio por um investimento automático todos os meses em uma opção segura, pode ser no Tesouro Direto, por exemplo, certamente vai juntar mais dinheiro nesse período do que em um consórcio”, afirma.
O custo do consórcio, cuja taxa de administração média é estimada em 0,073% ao mês pela Abac, costuma ser o maior atrativo. Em termos financeiros, no entanto, o comprador deve levar em consideração que o valor de um lance, para ser competitivo, representa também um custo a ser assimilado. “No fim das contas, o consórcio de imóvel fica igual ou até mais caro do que um financiamento e menos vantajoso do que um investimento atrelado ao CDI [taxa próxima da Selic, hoje em 15% ao ano] para juntar o valor de entrada”, explica Yolanda.
Segundo ela, hoje há consórcios menos custosos do que costumava ser a prática do mercado no passado. Mesmo assim, a modalidade pode ficar mais cara do que outras comparações. “É preciso entender bem as letras miúdas e os custos. Isso muitas vezes não é bem explicado nos contratos”, afirma.
Para a Abac, ainda prevalece o caráter de disciplina do consórcio. “Por que uma pessoa opta por Previdência Privada se pode investir? Pela mesma razão que opta por um consórcio, porque há um planejamento compulsório”, afirma Barbagallo, da Abac.
Consórcio de imóvel em 2026
A esperada queda dos juros, a partir da redução da Selic, é um item com potencial de afetar o interesse por consórcio de imóveis, mas não de forma automática. “Estudos de correlação que fizemos no passado mostram uma relação relativamente baixa entre queda da Selic e procura por consórcio, na ordem de 15%”, diz Barbagallo.
Segundo o economista da Abac, o que novamente entra na conta é a impressão de uma opção descomplicada para comprar um imóvel. “No cálculo do consumidor, o consórcio sempre parece ser a opção mais barata. Então, o impacto da redução da Selic tende a ser baixo, não vai reduzir a procura por consórcio na mesma proporção”, afirma.







