Veja o resumo da notícia
- Maurício Gariglia iniciou sua carreira no mercado imobiliário de Alphaville aos 18 anos, tornando-se incorporador.
- Ele é CEO da BR Soho e lidera o projeto Reserva Beach, com VGV estimado em R$ 4,2 bilhões, tendo Ronaldo Nazário como sócio.
- Gariglia começou como office-boy aos 12 anos e entrou no mercado imobiliário por convite, destacando sua origem humilde.
- Sua transição de corretor para incorporador ocorreu ao reinvestir comissões em empreendimentos, alcançando 50% de sociedade.
- O Reserva Beach Club nasceu de uma recusa em ser apenas terrenista, levando Gariglia a desenvolver seu próprio clube com piscinas de ondas.
- A parceria com Ronaldo Nazário se formalizou em janeiro, com o ex-jogador investindo recursos financeiros no projeto.
- A relação entre os sócios resultou na criação da Galácticos House, uma arena de tênis fixa dentro do clube.
- Apesar do sucesso, Gariglia ainda se considera corretor, mantendo a paixão pelas vendas e a disponibilidade para clientes.

Aos 18 anos, cinco dias depois de completar a maioridade, Maurício Gariglia entrou no mercado imobiliário de Alphaville, região que abrange Barueri e Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Começou como corretor, passou a vender terrenos, reinvestiu as próprias comissões em empreendimentos e, aos poucos, tornou-se incorporador.
Hoje, ele é CEO da BR Soho e está à frente do Reserva Beach Club, projeto de 169 mil metros quadrados em Alphaville que, segundo Gariglia, tem VGV (Valor Geral de Vendas) estimado em R$ 4,2 bilhões. O ex-jogador Ronaldo Nazário, o Fenômeno, é um dos sócios do empreendimento.
A entrevista foi concedida na semana em que Ronaldo completou 50 anos e a menos de dois meses de Gariglia chegar aos 60. Ao contar ao Portas como chegou até ali, ele faz questão de lembrar de onde começou e de dizer que veio de uma família humilde.
Da zona norte a Alphaville
Gariglia morava em Santana, na zona norte de São Paulo, com o pai, bancário, e a mãe, dona de casa. Aos 12 anos, começou a trabalhar como office-boy para ajudar em casa em uma corretora de câmbio e valores.
A entrada no mercado imobiliário veio alguns anos depois, a convite do dono de uma imobiliária. Gariglia conta que o empresário gostou do atendimento que recebeu do jovem quando ele atuava na corretora e disse que, quando ele completasse 18 anos, poderia procurá-lo para trabalhar.
Foi o que fez. Mesmo sem carro, CNH ou Creci, saiu de Santana em direção a Alphaville para cobrar a promessa. A empresa era a Guizzard, rede de imobiliárias dos irmãos Afonso e Alex Guizzard, que, segundo ele, tinha forte atuação na região.
No começo, acompanhava outros corretores nas visitas. Depois de conseguir o registro profissional, fez a primeira venda. Com o dinheiro, comprou o carro e deu entrada no apartamento que a mãe queria.
Mesmo estando hoje à frente de um projeto de VGV de R$ 4,2 bilhões, ele diz que a compra do primeiro apartamento para morar ficou marcada como uma das experiências mais difíceis de sua carreira.
A dificuldade não estava apenas na compra parcelada. Gariglia conta que também se esforçou muito porque queria deixar o apartamento do jeito que a mãe havia pedido.

A compra do primeiro imóvel ocorreu ainda no começo da carreira, depois dele ter feito uma venda para um comerciante do Ceagesp, que passou a indicá-lo para colegas. O relacionamento com os clientes também ajudou a construir sua rede de contatos. “Além de ser muito bem recebido por eles, todos enchiam o meu porta-malas de frutas. Era uma festa”, afirma.
Dica de ouro
Gariglia nunca frequentou uma universidade. Sua formação profissional, diz, veio principalmente da experiência no mercado e do convívio com os colegas da Guizzard.
Entre os ensinamentos que diz ter levado para a vida está um conselho dos irmãos Afonso e Alex Guizzard. Eles costumavam convidá-lo para almoçar e, segundo ele, aproveitavam esses encontros para ensinar uma espécie de técnica de prospecção.
“Eles costumavam me levar para almoçar e sempre me diziam para prestar atenção e saber ouvir a mesa ao lado, já que sempre vai ter alguém ali falando sobre imóvel”
Gariglia diz que até hoje presta atenção às conversas ao redor porque dali pode surgir uma oportunidade de negócio, inclusive durante a entrevista ao Portas, ele sugeriu uma venda para o repórter.
No primeiro ano de carreira, segundo ele, já ocupava uma posição de liderança na imobiliária. Ficou apenas alguns anos na empresa.
Quando a comissão virou sociedade
A mudança de corretor para incorporador não veio da noite para o dia, mas sim das próprias vendas, principalmente quando Gariglia passou a trabalhar com áreas empresariais, terrenos destinados a empreendimentos comerciais e industriais.
Entre os clientes que cita está Walter Torre (o pai), empresário do setor imobiliário já falecido. Gariglia conta que vendeu terrenos para ele e que, naquele período, passou a apresentar áreas de helicóptero, algo que ajudou a ampliar seus negócios.
As comissões começaram a crescer. Foi nesse período que conheceu Marcos Chindi Minomo, empresário do setor imobiliário com quem se tornaria sócio durante muito tempo.
Gariglia decidiu que queria deixar de ganhar apenas a comissão pelas vendas e passar a participar dos próprios empreendimentos. Propôs a Minomo que sua comissão fosse transformada em participação nos negócios. O início foi com 5% de uma venda que fez.
A participação foi crescendo à medida que Gariglia reinvestia o dinheiro obtido nos projetos. Segundo ele, chegou a 50% da sociedade por volta de 2015.
Um dos primeiros negócios da parceria foi o Polo Empresarial Tamboré. Entre as áreas que Gariglia cita também estão o terreno onde hoje funciona o centro de tecnologia da Vivo em Alphaville e o condomínio Vila Solaia, feito em parceria com a construtora São José.
A divisão de funcoes entre os sócios era a seguinte: enquanto Minomo ficava mais ligado à parte financeira e administrativa, Gariglia preferia estar na rua, acompanhando empreendimentos e vendas.
“Eu gosto mesmo é de ficar na rua, de ver os empreendimentos e ficar em estandes. A sensação de vender é muito boa”
Os dois fizeram uma divisão das áreas que possuíam antes da morte de Minomo. A sociedade foi encerrada após a morte do empresário em um acidente de helicóptero, em 2018.
Da cisão nasceu a estrutura atual da BR Soho. Gariglia conta que as áreas que ficaram sob seu controle foram reunidas em um fundo, do qual ele é único cotista. Segundo ele, o banco de áreas da empresa está concentrado nessa estrutura.
Além do Polo Empresarial Tamboré, a BR Soho está envolvida, entre outros negócios, com projetos residenciais como Campos do Conde e Vila Solaia, a Hamburger University, centro de treinamento corporativo do McDonald’s, e um empreendimento residencial voltado para a terceira idade.
A recusa que virou o Reserva Beach Club
O Reserva Beach Club nasceu de uma negociação que poderia ter terminado de outra maneira. Uma incorporadora concorrente procurou Gariglia para fazer um clube em uma área que ele tinha em Alphaville.
A proposta era que ele participasse como terrenista, termo usado no mercado para designar o proprietário da terra que fornece ou vende o terreno para um empreendimento sem necessariamente participar do negócio como sócio. Gariglia não quis. “Eu queria ser sócio, eu queria empreender junto”, diz.
A partir daí, começou a estudar o modelo de clubes com piscinas de ondas e viajou para conhecer empreendimentos do tipo. A ideia era transformar uma área que poderia ser apenas vendida em um negócio no qual ele também tivesse participação.

Antes do clube, ele chegou a negociar naquele mesmo terreno de 169 mil metros quadrados um projeto residencial com uma incorporadora, porém, o projeto não avançou.
Gariglia então mudou de ideia e decidiu desenvolver o seu próprio clube. Em vez de criar apenas uma piscina de ondas para adultos, ampliou a proposta para incluir uma área infantil, parque aquático, quadras de tênis e outros espaços.
A ideia, segundo ele, também tinha relação com sua própria rotina. Gariglia conta que sempre viajou com a família para destinos de praia nos fins de semana e queria levar essa experiência para Alphaville.
Como Ronaldo entrou na história
A parceria com Ronaldo Nazário surgiu quando o projeto do Reserva Beach Club já estava em andamento. Um amigo em comum, que segundo Gariglia insistia havia anos em apresentar os dois, organizou um almoço em setembro de 2025.
Depois do encontro, Gariglia convidou o ex-jogador para conhecer o projeto. “Quando o Ronaldo chegou, todos da obra pararam para ir lá tirar foto com ele”, diz.
Gariglia conta que não era particularmente ligado ao futebol, mas percebeu que Ronaldo poderia participar do projeto de outra forma, e não apenas emprestar a imagem.
Depois de alguns meses de negociação, os dois formalizaram a parceria em janeiro deste ano. Segundo Gariglia, Ronaldo entrou no negócio também com recursos financeiros.
“Ele [Ronaldo] não entrou só com a imagem, ele entrou com funding também”
Funding, no caso, é o dinheiro usado para financiar a execução do projeto.
Além dos dois, o empreendimento tem outros investidores cujos nomes, segundo Gariglia, não podem ser revelados. Juntos, eles devem desembolsar R$ 1 bilhão para colocar o projeto em pé, de acordo com o empresário.
A relação entre os dois também acabou criando um segundo negócio dentro do Reserva Beach Club. Originalmente, as quadras de tênis não teriam uma arena, uma estrutura para receber o público para assistir as disputas. A ideia de criar uma estrutura maior, segundo Gariglia, partiu de Ronaldo, que viu a possibilidade de receber torneios.
“O próprio SP Open foi realizado no Parque Villa-Lobos com uma arena montada. A diferença do nosso projeto é que será fixa”, diz.
O SP Open, torneio WTA 250 realizado no Parque Villa-Lobos, aproveitou parte da estrutura das quadras duras já existentes no local, porém, o lugar que recebeu o público não era uma estrutura fixa.
O espaço criado a partir da parceria recebeu o nome de Galácticos House, escolhido por Ronaldo. Segundo Gariglia, serão 300 títulos de associação, e a entrada de cada novo associado dependerá da aprovação do ex-jogador.
O corretor continua ali
A transformação em incorporador e a parceria com Ronaldo não mudaram, segundo Gariglia, a maneira como ele se enxerga profissionalmente. Ele continua se considerando corretor e diz que ainda gosta de estar nos estandes de vendas.
“Se eu sentar na mesa hoje de um estande de vendas, com certeza absoluta eu vendo. A gente não perde venda”
A disponibilidade para o cliente também continua sendo uma espécie de regra pessoal.
“Se você me ligar 10h30 da noite, eu te atendo. Se eu não te atender, eu te mando o recadinho, e te ligo em cinco minutos”
Questionado de onde veio essa disposição para vender, já que, segundo ele, nenhum parente próximo trabalhava com vendas ou comércio, Gariglia não fala em vocação. Fala em necessidade.
“Eu não tinha outra possibilidade. Ou eu ia ser corretor ou eu ia ser corretor, amigo. Eu tinha que vender”, diz.
No começo da carreira, conta, via outros profissionais ganhando dinheiro e imaginava que poderia chegar ao mesmo lugar.
“Na época que eu entrei, todo mundo era muito bem-sucedido. E eu sonhava com isso”
A carreira também exigiu convencer quem estava ao redor. Gariglia conta que, quando começou a namorar a mulher com quem está casado há 39 anos, chegou a ouvir do sogro uma pergunta sobre como ele pretendia se casar com a filha sendo corretor de imóveis.
A aposentadoria, por outro lado, continua sendo adiada. Aos 40 anos, Gariglia disse à mulher que iria parar de trabalhar para viajar. Aos 50, pediu mais tempo. Agora, prestes a completar 60, a nova promessa ficou ainda mais distante.
“Eu vou fazer 60 anos agora em novembro. Ela falou: ‘Maurício, para que a gente precisa viajar’. Com 95 eu juro que eu paro. Ser corretor é a melhor coisa do mundo”







