Veja o resumo da noticia
- O setor imobiliário brasileiro, com muitos profissionais e baixa barreira de entrada, contrasta com a exigência de outras áreas essenciais.
- A facilidade de acesso gera pulverização e qualidade desigual, onde a educação se torna crucial para garantir um padrão elevado.
- A experiência da Coreia do Sul demonstra a importância da educação rigorosa para o desenvolvimento econômico e influência global.
- Iniciativas educacionais no Brasil, como novas faculdades e cursos, visam aprimorar a formação dos profissionais do setor.
- A educação qualificada transforma corretores em consultores, agilizando processos, reduzindo litígios e aumentando a confiança.
- Formação sólida no mercado imobiliário impacta positivamente a economia, gerando negócios seguros e clientes satisfeitos.

Há mercados dos quais não abrimos mão. Comida, roupa, moradia. Quando falamos de moradia, falamos de um ecossistema complexo: corretores, imobiliárias, crédito habitacional, tecnologias de gestão, avaliação patrimonial, fundos imobiliários. É um sistema que entrega algo fundamental à vida das pessoas e, por isso, precisa entregar bem.
580 mil profissionais, uma questão de base
O Brasil encerrou 2024 com aproximadamente 580 mil corretores de imóveis ativos e cerca de 70 mil imobiliárias registradas no Sistema COFECI-CRECI, números que colocam o país como o segundo do mundo em quantidade de profissionais do setor, atrás apenas dos Estados Unidos. É um mercado que atrai, promete e pode proporcionar boas comissões e histórias de sucesso.
Mas há um detalhe estrutural: a barreira de entrada no setor imobiliário é consideravelmente mais baixa que em outras profissões essenciais. Médicos, por exemplo, precisam de seis anos de graduação, residência e CRM. Advogados cumprem cinco anos de graduação com estágio obrigatório e, após formados, precisam ser aprovados no Exame da OAB. No imobiliário, embora a profissão seja regulada desde 1978 e exija CRECI, o caminho é mais curto: um curso técnico que pode ser concluído entre três e seis meses, ou graduação tecnológica de dois anos.
Além disso, após apenas 30 dias de matrícula no curso, o aluno já pode solicitar registro provisório de estagiário no CRECI e atuar no mercado com supervisão, ganhando experiência prática ainda durante a formação. E há outro contraste relevante: enquanto o Exame da OAB aprova cerca de 23% dos candidatos na primeira tentativa, os cursos de TTI oferecem até 10 tentativas por módulo, nota mínima entre 50% e 70% de aproveitamento, e ainda processos de recuperação — uma estrutura que resulta em aprovação quase universal dos matriculados.
Pulverização extrema, qualidade desigual
Esse desenho democratiza o acesso, mas gera um efeito colateral: pulverização extrema com qualidade desigual. Em telecomunicações, três operadoras concentram cerca de 95% do mercado — escala que permite padronização e treinamento consistente. No imobiliário, são centenas de milhares de profissionais e dezenas de milhares de pequenas empresas. Em mercados pulverizados, educação é ainda mais decisiva para garantir qualidade.
A experiência internacional com educação em escala nacional ensina lições importantes. A Coreia do Sul saiu da extrema pobreza nos anos 1950 para se tornar potência econômica em quatro décadas. O “Milagre do Rio Han” teve muitos fatores, mas um pilar central foi a obsessão por educação de base.
Entre 1980 e 2011, a taxa de matrícula no ensino superior saltou de 11,4% para 65% — uma expansão massiva que, crucialmente, não abriu mão do rigor. As universidades sul-coreanas mantiveram processos seletivos exigentes e padrões elevados de aprovação, combinando acesso amplo com qualidade rigorosa.
O resultado foi uma força de trabalho qualificada capaz de sustentar avanço tecnológico sustentado, transformando o país em potência em semicondutores, eletrônicos e tecnologia da informação. E não apenas economicamente: a aposta educacional também projetou a Coreia globalmente em cultura, entretenimento e inovação, consolidando influência que vai muito além de suas fronteiras.
A literatura do Banco Mundial e da OCDE documenta essa trajetória como exemplo do binômio educação de qualidade – produtividade – renda.
A virada educacional brasileira
No Brasil, há sinais de virada. O ano começou com uma notícia relevante, noticiada pela Folha de São Paulo: o MEC credenciou a primeira faculdade especializada no setor imobiliário. O Sistema COFECI-CRECI ampliou plataformas EAD e programas como o Saber Imobiliário, em parceria com o Sebrae. A UniSecovi oferece cursos sobre incorporação e finanças; a ABECIP mantém certificações em crédito habitacional; o CNAI estabelece requisitos para avaliadores.
E há um dado animador: segundo pesquisa do COFECI em parceria com a DataZAP, 62% dos corretores brasileiros já possuem curso superior — há 25 anos, eram apenas 14%.
Por que isso importa
Porque educação reduz a assimetria entre promessa e entrega. Um corretor bem formado não é tirador de pedidos; é consultor. Usa métodos reconhecidos para precificar, orienta sobre crédito, domina documentação e pós-venda. O resultado é processo mais rápido, menos retrabalho, menos litígio, mais confiança.
Educação no mercado imobiliário não é apenas questão técnica; é também questão econômica. O setor realiza sonhos de moradia, atende milhões de clientes em transações de compra e locação, gera centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, movimenta bilhões em crédito habitacional e responde por parcela significativa da arrecadação tributária do país.
Quando a formação é sólida, toda essa cadeia funciona melhor: negócios mais seguros, clientes mais satisfeitos, profissionais mais valorizados e economia mais aquecida. Não se trata de erguer barreiras para dificultar acesso à profissão, mas de garantir que os requisitos de formação sejam efetivos, sérios e continuamente atualizados, protegendo tanto quem atua quanto quem contrata o serviço.
A questão, no fim, não é ter menos profissionais — é oferecer mais caminhos para que se desenvolvam e se eduquem. Quando corretores e imobiliárias têm acesso a formação contínua de qualidade, todo o setor ganha. Um mercado sem educação não entrega melhor; perde economicamente.

