Veja o resumo da noticia

  • Hui Ka Yan, fundador da Evergrande, foi condenado à prisão perpétua por crimes financeiros na China.
  • O empresário teve bens confiscados e perdeu direitos políticos, com 56 outros condenados no caso.
  • Yan e a Evergrande foram considerados culpados de fraude financeira, captação ilegal de depósitos e suborno.
  • A empresa inflou ativos e ocultou passivos entre 2016 e 2021, segundo a Justiça chinesa.
  • Hui Ka Yan construiu um império imobiliário baseado em crédito, tornando-se o homem mais rico da Ásia.
  • O colapso da Evergrande, com US$ 300 bilhões em passivos, impactou o mercado imobiliário chinês.
  • A empresa continuou obtendo financiamento para projetos, deixando centenas de empreendimentos inacabados.
  • Em 2024, Yan já havia sido multado e banido do mercado de capitais chinês por inflar receita.
Evergrande Xu Jiayin Hui Ka Yan fraude mercado imobiliário China
Xu Jiayin, do Grupo Evergrande, é julgado no Tribunal Popular Intermediário de Shenzhen, na província de Guangdong, sul da China Crédito:Tribunal Popular Intermediário de Shenzhen/Divulgação via Xinhua

Hui Ka Yan, fundador da gigante imobiliária chinesa Evergrande Real Estate Group, foi condenado nesta quinta-feira (20) à prisão perpétua por uma série de crimes financeiros relacionados à gestão da companhia. O empresário, também conhecido como Xu Jiayin, teve todos os seus bens pessoais confiscados e perdeu seus direitos políticos por toda a vida. 

A sentença foi proferida pelo Tribunal Popular Intermediário de Shenzhen, na província de Guangdong. A corte também determinou que eventuais ganhos ilícitos ainda não recuperados sejam devolvidos, segundo informações da Xinhua, a agência de notícias estatal chinesa.

Além de Yan, outras 56 pessoas ligadas ao grupo foram condenadas com penas que variam de 22 meses a 18 anos de prisão. O tribunal considerou que elas fizeram captação ilegal de depósitos públicos, fraude na captação de recursos e uso ilegal de fundos. 

O caso de Yan encerra, ao menos no âmbito criminal, a trajetória de um dos empresários que mais se beneficiaram do boom imobiliário chinês e que, posteriormente, se tornou o principal rosto do colapso de uma das maiores incorporadoras do país. 

A Evergrande chegou a ser a maior incorporadora imobiliária da China e acumulou mais de US$ 300 bilhões em passivos antes de entrar em colapso, segundo a Forbes.

Crimes financeiros e fraudes

Segundo a Xinhua, Yan e sua empresa foram considerados culpados de captação ilegal de depósitos públicos, fraude na captação de recursos, concessão ilegal de empréstimos, emissão fraudulenta de valores mobiliários, divulgação ilegal de informações importantes e suborno empresarial.

Além disso, ele teria feito uso ilegal de fundos e apropriação indébita. Evergrande Real Estate Group, por sua vez, foi considerada culpada pela emissão fraudulenta de valores mobiliários.

Entre 2016 e 2021, segundo a decisão, o grupo praticou fraude financeira em larga escala para inflar ativos e ocultar passivos. Na prática, a acusação central envolve a tentativa de apresentar uma empresa em situação financeira melhor do que aquela que realmente existia. 

O tribunal afirmou que a fraude foi contínua e de grande escala e que as práticas serviram para inflar os ativos e esconder as dívidas do grupo. 

A Justiça também concluiu que Yan e a Evergrande obtiveram controle sobre instituições financeiras por meio de subornos e outros mecanismos, conseguindo acesso ilegal a recursos de crédito e seguros que foram utilizados pelo grupo. 

Yan também teria usado sua posição como presidente da Evergrande Real Estate Group para organizar fraudes financeiras e se apropriar de ativos da companhia sob o pretexto de distribuição de dividendos. O empresário se declarou culpado em abril deste ano.

Trajetória de Hui Ka Yan

Yan, hoje com 67 anos, nasceu em uma região rural da China e foi criado pela avó. Ele é bacharel em artes e ciências pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Wuhan.

Segundo a Forbes, após se formar na faculdade em 1982, ele trabalhou como técnico em uma fábrica de aço por 10 anos. Ele fundou a Evergrande em Guangzhou em 1996 e construiu mais de mil projetos habitacionais em todo o país.

A estratégia combinava aquisição de terrenos, construção de empreendimentos e forte utilização de crédito. A companhia cresceu rapidamente e Yan chegou a ser considerado o homem mais rico da Ásia, segundo um perfil do empresário publicado pela BBC. Sua fortuna atingiu US$ 45,3 bilhões em 2017, segundo a Reuters. Dados de 2023 publicados pela Forbes indicam que o empresário tinha uma fortuna de US$ 3 bilhões. 

O empresário, porém, não ficou restrito ao mercado imobiliário. Sob seu comando, a Evergrande avançou para áreas como serviços imobiliários, veículos elétricos, finanças, turismo e futebol. No auge, a empresa chegou a registrar vendas anuais próximas de US$ 100 bilhões, tornando-se um dos maiores símbolos da expansão do mercado imobiliário chinês, segundo a BBC.

Colapso da Evergrande

Durante anos, a Evergrande cresceu rapidamente com uma estratégia baseada em empréstimos. O modelo funcionou enquanto o mercado imobiliário chinês estava aquecido e havia crédito disponível. 

A situação mudou em 2020, quando o governo chinês adotou medidas para limitar o endividamento das incorporadoras. Com menos acesso a crédito, a Evergrande passou a ter dificuldades para pagar suas dívidas e começou a vender imóveis com grandes descontos para levantar dinheiro. 

Em 2021, a empresa deixou de pagar as suas dívidas. Naquele ano, acumulava mais de US$ 300 bilhões em passivos e havia se tornado a incorporadora mais endividada do mundo. O colapso atingiu não apenas investidores e bancos, mas também compradores de imóveis e outras empresas do setor. 

Segundo a Justiça chinesa, a Evergrande continuou obtendo financiamento para novos empreendimentos enquanto sua situação financeira se deteriorava. Parte desses recursos foi usada em novos projetos, deixando centenas de empreendimentos inacabados. 

A condenação de Yan não foi a primeira punição por irregularidades financeiras na Evergrande. Em 2024, ele foi multado em US$ 6,5 milhões e banido para sempre do mercado de capitais chinês. 

As autoridades concluíram que a empresa havia inflado sua receita em US$ 78 bilhões. Agora, no processo criminal, a Justiça concluiu que Yan e as empresas do grupo inflaram ativos e esconderam dívidas entre 2016 e 2021, além de cometerem outros crimes financeiros. 

No auge, Evergrande chegou a ser uma das maiores incorporadoras da China e do mundo, com valor de mercado superior a US$ 50 bilhões. Após sucessivas inadimplências, em janeiro de 2024, um tribunal de Hong Kong determinou a liquidação da companhia. 

As ações ficaram suspensas por mais de um ano e foram retiradas da Bolsa de Hong Kong em agosto de 2025, depois de perderem praticamente todo o valor que tinham.

Clayton Freitas

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.