Veja o resumo da noticia
- Condomínios enfrentam desafios inesperados na infraestrutura para carregamento de carros elétricos.
- Legislação recente colide com a capacidade elétrica limitada dos edifícios existentes.
- Novas exigências de segurança do Corpo de Bombeiros impactam a instalação de carregadores.
- Adaptação da infraestrutura elétrica dos prédios acarreta altos custos e complexidades.
- A distinção entre vagas privativas e coletivas afeta o direito de instalação individual.
- Sistemas de carregamento pay-per-use e compartilhados surgem como alternativas viáveis.
- Preocupações com incêndios em baterias de lítio elevam os riscos em garagens de condomínios.

Muita gente comprou carro elétrico esperando plugar em casa. Descobriu que o prédio não aguenta. A expansão dessa modalidade provoca uma corrida silenciosa dentro dos condomínios brasileiros para regularizar os carregadores elétricos para esses carros, especialmente em São Paulo. Um norma de março dos bombeiros trouxe restrições, devido a normas de segurança.
Síndicos, administradoras e moradores tentam agora adaptar prédios a uma demanda que deixou de ser exceção para virar pressão cotidiana nas assembleias.
Até mesmo imóveis de alto padrão, recém-entregues, estão tendo de convocar assembleias para debater o tema com os condôminos. A questão técnica, principalmente por motivos de segurança, é de longe a mais importante quando se pensa em dar o primeiro passo. O desafio envolve desde limitações elétricas e custos de infraestrutura até disputas sobre vagas, regras de segurança e riscos de incêndio. Para especialistas do setor, o movimento é irreversível.
Lei garante carregador em vaga privativa
“É um caminho sem volta”, afirma Joe Macedo, da Elite Síndicos Associados. “Durante muito tempo havia uma demanda reprimida. Muita gente queria comprar carro elétrico, mas não tinha onde carregar.”
Segundo Macedo, o cenário mudou de forma acelerada após o governo paulista sancionar, em fevereiro, a lei que garante ao morador o direito de instalar carregadores em vagas privativas. A medida, porém, acabou esbarrando em uma realidade técnica bem mais complexa do que muitos moradores imaginavam.
“Todo mundo passou a dizer: ‘eu tenho direito, vou instalar’. Mas logo depois o Corpo de Bombeiros lançou novas exigências técnicas, e isso mudou completamente o cenário”, afirma.
Regra garante direito de instalar carregador elétrico, mas estrutura dos prédios não acompanha
Em março, o Corpo de Bombeiros publicou a IT-41, instrução técnica que estabelece parâmetros mínimos de segurança para instar carregadores de veículos elétricos em garagens de condomínios. Na prática, segundo Macedo, muitos prédios simplesmente não foram projetados para suportar esse tipo de demanda elétrica.
“Tem condomínio que não permitia nem ar-condicionado quando foi construído. Quem dirá carregador para carro elétrico”, diz.
O primeiro problema começa pela própria vaga. A legislação garante o direito apenas para vagas privativas — aquelas vinculadas à escritura do imóvel. Em muitos condomínios, porém, as vagas são rotativas ou apenas de uso informal.
“As pessoas não estão lendo a lei inteira”, afirma Macedo. “O direito existe desde que a vaga seja privativa.” Além disso, mesmo quando há autorização legal, muitos edifícios não têm capacidade elétrica suficiente para atender simultaneamente vários carregadores.
Passo essencial para instalação do carregador
Diante do aumento da demanda, condomínios passaram a contratar laudos técnicos para entender quantos veículos podem ser carregados ao mesmo tempo sem comprometer a segurança da estrutura. Esse é considerado um passo essencial pelos especialistas.
Adaptar todo o prédio para que cada morador tenha seu próprio sistema de carregamento — especialmente quando a carga elétrica disponível é insuficiente — é hoje a etapa mais cara e complexa de todo o processo. O desafio se torna ainda maior quando há necessidade de ampliar a capacidade elétrica externa do edifício.
Macedo relata o caso de um condomínio com 69 apartamentos cujo estudo concluiu que apenas seis veículos poderiam ser carregados simultaneamente. “E aí surge outro problema: como escolher quais moradores terão direito?”, questiona.
Mudanças estruturais exigidas para instalar carregador elétrico
A adaptação também exige mudanças estruturais importantes. Antes das novas regras dos bombeiros, muitos moradores puxavam a instalação diretamente do relógio individual do apartamento. Agora, a recomendação é que a alimentação elétrica saia do quadro geral do prédio. Isso obriga a instalação de novas calhas, cabeamentos e sistemas de controle passando pelas áreas comuns — o que pode transformar o tema em uma disputa jurídica e financeira dentro dos condomínios.
“Não é uma simples tomada”, resume Joe Macedo, da Elite Síndicos Associados. “Os prédios foram construídos décadas atrás para uma realidade completamente diferente.” Segundo ele, o consumo residencial mudou radicalmente nos últimos anos. “Quando muitos prédios foram entregues, não existiam airfryer, vários celulares carregando ao mesmo tempo, secadores, chapinhas, bicicletas elétricas. Tudo isso aumenta a carga.”
Dependendo da obra, a aprovação pode exigir maioria simples ou até dois terços dos moradores em assembleia, já que a infraestrutura afeta áreas comuns do edifício.
Vaga privativa ou sistema coletivo? Compare as opções
Pay-per-use e sistemas compartilhados: as alternativas para condomínios sem estrutura
Diante da dificuldade de adaptar vagas individuais, muitos condomínios passaram a discutir modelos compartilhados de carregamento. Uma das alternativas é o chamado pay-per-use, semelhante ao funcionamento de postos de abastecimento. Nesse sistema, uma empresa instala os equipamentos, e os moradores reservam horários para utilização por aplicativo.
“Você entra no sistema, reserva o horário e usa a vaga apenas enquanto o carro está carregando”, explica Macedo. Segundo ele, o modelo tende a crescer em prédios sem vagas privativas ou com limitação elétrica. Outra tendência é a contratação de empresas especializadas para administrar toda a operação, incluindo controle de carga elétrica e cobrança individualizada pelo consumo.
Incêndio em bateria de lítio: por que garagens de condomínio preocupam os bombeiros
Além da infraestrutura elétrica, o avanço dos veículos movidos a bateria aumentou a preocupação com incêndios em garagens. Macedo afirma que os bombeiros ainda estão ajustando protocolos para lidar com esse tipo de ocorrência.
Um dos problemas é que incêndios em baterias de lítio podem durar muito mais tempo e demandar grande volume de água. “A água usada nesse incêndio fica contaminada. Então ainda existe uma discussão sobre como tratar isso no futuro”, afirma.
A expectativa do mercado é que novas exigências devem surgir gradualmente conforme a tecnologia evoluir. Hoje, as principais preocupações são a capacidade elétrica dos prédios e a integração dos carregadores aos sistemas de alarme e combate a incêndio.
Em outros condomínios, como um empreendimento com mais de uma década no Morumbi, a solução encontrada foi combinar tomadas coletivas com o credenciamento de empresas específicas para atender os moradores. Apenas essas companhias podem realizar instalações e manutenções no local.







