Veja o resumo da notícia

  • Clientes formam opinião sobre corretores online antes do contato direto, pesquisando perfis e avaliações.
  • Dados da NAR mostram que 46% dos compradores iniciam a busca por imóvel online, e 80% dos vendedores contratam o primeiro corretor.
  • A presença digital e a reputação online tornaram-se parte essencial da competência comercial no mercado imobiliário.
  • Ferramentas digitais e inteligência artificial potencializam o preparo, mas não substituem o conhecimento e a capacidade analítica.
  • O uso inadequado de IA, como textos genéricos e fotos artificiais, prejudica a construção de vínculo com o cliente.
  • A reputação de corretores e imobiliárias é construída pela acumulação de contatos e interações online, sem atalhos.

Não é novidade que o cliente chega a uma negociação com uma opinião já formada sobre o profissional que vai atendê-lo. Livros de vendas, treinamentos de corretagem e manuais de atendimento ao cliente repetem há décadas a mesma orientação: cuide da sua imagem, construa autoridade, mantenha boas referências. O que mudou, nos últimos anos, é a velocidade e a escala com que essa formação de opinião acontece, e o grau de controle, ou de descuido, que o profissional exerce sobre ela.

O cliente pesquisa antes de ligar. Examina o perfil nas redes sociais, lê comentários, observa como o profissional responde a perguntas públicas, avalia a qualidade dos anúncios, a coerência do que é apresentado online com o que se espera de um especialista. Faz isso em silêncio, sem se identificar, sem dar ao corretor a chance de causar uma boa impressão direta. Quando o contato finalmente acontece, a impressão já existe.

Dados divulgados pela Associação Nacional de Corretores dos Estados Unidos (NAR, na sigla em inglês) reforçam esse padrão: 46% dos compradores americanos iniciaram a busca por um imóvel de forma online, enquanto apenas 20% começaram pelo contato direto com um corretor. Entre vendedores, 80% contrataram o primeiro profissional com quem conversaram. A decisão, na prática, já estava tomada antes da conversa.

O lead não é o começo. É o resultado.

O mercado imobiliário brasileiro, em grande parte, ainda trata o lead como ponto de partida da relação comercial. O contato chega, o corretor liga, começa a construir rapport, tenta apresentar credenciais. Mas para uma parcela crescente dos clientes, esse esforço chega tarde. A relação já começou, online, antes do primeiro contato direto, e o profissional pode não saber que já foi avaliado.

Essa inversão tem consequências práticas para a operação de imobiliárias e equipes de corretores. Se a decisão de confiar ou não em um profissional se forma antes do contato, o investimento em presença digital deixa de ser uma questão de marketing e passa a ser parte da competência comercial. Não se trata de postar com frequência ou acumular seguidores. Trata-se de garantir que o que o cliente encontra quando pesquisa o nome do profissional seja coerente com o nível de serviço que ele de fato entrega.

A reputação que se constrói antes de ser chamado

Reputação, no setor imobiliário, sempre circulou por indicação. Um cliente satisfeito recomenda o corretor para um vizinho, um familiar, um colega. Esse mecanismo não desapareceu. O que se somou a ele foi uma camada digital que amplifica e registra, de forma permanente, tanto o que o profissional faz bem quanto o que faz mal.

Avaliações no Google, interações nas redes sociais, qualidade dos anúncios publicados, tom das respostas a comentários, consistência do conteúdo ao longo do tempo: tudo isso compõe, para o cliente em fase de pesquisa, uma impressão tão concreta quanto qualquer recomendação pessoal. Um perfil sem atividade recente, avaliações sem resposta ou anúncios com fotos inadequadas comunicam algo sobre o profissional antes mesmo que ele abra a boca.

O problema é que parte significativa dos corretores e imobiliárias ainda não trata esse ambiente com o mesmo cuidado que dedica ao atendimento presencial. E quando o descuido se instala, a reputação se forma do mesmo jeito, só que sem controle.

Quando a ferramenta substitui o preparo

Nos últimos anos, ferramentas digitais, redes sociais, plataformas de automação e, mais recentemente, recursos de inteligência artificial (IA), passaram a fazer parte da rotina de comunicação de corretores e imobiliárias. Quando bem usadas, por profissionais que se prepararam para usá-las, essas ferramentas podem ampliar o alcance, melhorar a consistência da comunicação e liberar tempo para o que exige julgamento humano.

O que se observa com frequência, porém, é um uso que inverte essa lógica. Textos gerados por IA sem revisão ou personalização, publicados como se fossem a voz do profissional, soam genéricos e impessoais para qualquer leitor minimamente atento. Fotos produzidas artificialmente, substituindo imagens autênticas do corretor, criam uma distância que prejudica a construção de vínculo. Chatbots respondendo perguntas de clientes sem que o profissional por trás deles tenha o domínio necessário para responder as mesmas perguntas sem a ferramenta.

A IA não transforma um profissional despreparado em um especialista. Ela potencializa o que já existe. Para quem tem repertório, domínio do mercado e capacidade analítica, ela pode ser uma vantagem real. Para quem usa a ferramenta como atalho para não estudar, não se desenvolver e não pensar, o efeito é o oposto: a fragilidade fica mais visível, não menos.

Uma analogia ajuda a situar o problema: O operário que empurrava uma carroça carregada poderia, em tese, assumir o comando de uma locomotiva a vapor. Mas sem instrução, sem preparo e sem entender os princípios que governam a máquina, ele não vai transportar mais carga com mais eficiência. Ele vai causar um acidente maior. A locomotiva não corrige a falta de preparo. Ela a amplifica.

O que o mercado brasileiro ainda precisa desenvolver

Percorrendo diferentes mercados imobiliários no Brasil, o que se observa, ao menos na impressão de quem acompanha esse movimento de perto, é que a cultura de preparo, de registro cuidadoso das informações, de esmero na comunicação com o cliente, não tem avançado na mesma velocidade das ferramentas disponíveis. Em alguns casos, pode até ter recuado.

O profissional que para de estudar o mercado porque consegue uma resposta rápida na internet perde, com o tempo, a capacidade de contextualizar essa resposta, de questionar sua pertinência, de adaptá-la à realidade do cliente que tem à frente. O que era uma limitação pontual se torna uma dependência estrutural.

A reputação de um corretor ou de uma imobiliária é construída por acumulação de oportunidades de contatos com clientes e influenciadores do processo. Cada anúncio publicado, cada resposta dada, cada interação registrada online contribui para a impressão que o próximo cliente vai encontrar quando pesquisar. Essa construção não tem atalho, e nenhuma ferramenta a substitui.

A pergunta que fica, para donos de imobiliárias e líderes de equipe, é direta: quando o seu cliente pesquisa o nome dos seus corretores antes de ligar, o que ele está encontrando?

Daniel Claudino
Daniel Claudino

Claudino é especialista e analista do mercado imobiliário, com aproximadamente 20 anos de atuação no setor. Atua como curador de eventos que conectam especialistas e agentes do mercado em diferentes regiões do Brasil, promovendo formação, análise crítica e inovação. É também sócio da Área 38 e conselheiro estratégico das empresas Aluu, Tikpag, Pipeimob e Squad Realty. Na Loft, atua como consultor com foco em inteligência comercial, integração institucional e performance de produtos. É autor dos livros “A Natureza do Mercado Imobiliário” e “Ontem, Hoje e Amanhã”, obras que propõem uma leitura ampliada e multidisciplinar sobre a moradia, o urbanismo e a evolução dos sistemas imobiliários. Atualmente, Claudino está radicado em Toronto, no Canadá, onde segue colaborando com iniciativas que antecipam o futuro do setor com consistência técnica, visão crítica e sensibilidade prática.

Claudino é especialista e analista do mercado imobiliário, com aproximadamente 20 anos de atuação no setor. Atua como curador de eventos que conectam especialistas e agentes do mercado em diferentes regiões do Brasil, promovendo formação, análise crítica e inovação. É também sócio da Área 38 e conselheiro estratégico das empresas Aluu, Tikpag, Pipeimob e Squad Realty. Na Loft, atua como consultor com foco em inteligência comercial, integração institucional e performance de produtos. É autor dos livros “A Natureza do Mercado Imobiliário” e “Ontem, Hoje e Amanhã”, obras que propõem uma leitura ampliada e multidisciplinar sobre a moradia, o urbanismo e a evolução dos sistemas imobiliários. Atualmente, Claudino está radicado em Toronto, no Canadá, onde segue colaborando com iniciativas que antecipam o futuro do setor com consistência técnica, visão crítica e sensibilidade prática.