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Volume de financiamentos reverteu queda observada no primeiro semestre de 2025
Volume de financiamentos reverteu queda observada no primeiro semestre de 2025

O crédito imobiliário brasileiro manteve um ritmo robusto de expansão no primeiro semestre de 2026, apesar do cenário de juros elevados e de aumento no custo de captação das instituições financeiras. Os financiamentos concedidos com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), para imóveis acima de R$ 600 mil, somaram R$ 93,7 bilhões entre janeiro e junho, alta de 29% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados apresentados nesta terça-feira (28) pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Na primeira metade 2025, o segmento havia recuado 10% ante igual intervalo de 2024. O desempenho indica resiliência da demanda por crédito habitacional, sustentada por um mercado de trabalho aquecido, renda com crescimento acima da inflação e continuidade dos programas habitacionais.

A entidade ainda não divulgou o dado desagregado de junho – até maio, o valor acumulado era de R$ 76,5 bihões, o que indica que as novas concessões para financiar a casa própria no sexto mês do ano ficaram em cerca de R$ 17 bilhões.

As concessões totais de financiamento imobiliário, que incluem recursos da poupança, do FGTS e de outras origens (as chamadas fontes livres), aumentaram 23% no primeiro semestre, para R$ 180,9 bilhões, sempre na comparação com mesmo período do ano anterior. Foram 850 mil imóveis financiados ao todo.

Na leitura por linhas de financiamento, o crescimento de 29% com recursos da poupança foi maior do que o do FGTS, com expansão de 22% no primeiro semestre. Confira os dados:

Financiamento imobiliário aquecido Concessões no primeiro semestre (R$ bilhões) 0 50 100 150 200 1º sem. 2025 1º sem. 2026 147,1 180,9 +23% 72,9 93,7 +29% 63,8 77,6 +22% 10,4 9,6 −8% Total SBPE FGTS Livre

“O financiamento imobiliário manteve trajetória positiva, com desempenho acima das expectativas no primeiro semestre. A continuidade desse crescimento dependerá de uma base de funding [fonte de recursos] mais ampla e diversificada, que complemente as fontes tradicionais”, disse Michel Cury, presidente da Abecip.

A Abecip informou que deve revisar, até a próxima semana, as projeções de crescimento para o crédito habitacional. Por enquanto, estima alta de 15% nos financiamentos com recursos da poupança e de 35% no FGTS. A tendência mais provável, segundo Cury, é de revisão para cima nos números sobre o FGTS.

Aquisição e construção

O crédito imobiliário pelo SBPE cresceu mais, percentualmente, nas operações de construção. O volume passou de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, uma alta de 107%. Segundo a Abecip, a base de comparação foi mais fraca no início de 2025, o que mostra uma recuperação para os níveis observados entre 2021 e 2024.

Já o financiamento para compra de imóvel atingiu R$ 67,2 bilhões, um aumento de 12%, também pelo recorte que considera o dinheiro da poupança. Os imóveis usados responderam por mais de 70% das operações de aquisição.

Juros pressionam custo de captação dos bancos

Apesar dos números favoráveis no primeiro semestre, a Abecip alertou que os bancos enfrentam um ambiente mais desafiador para financiar a habitação. Ao longo do primeiro semestre, as curvas de juros prefixadas de médio e longo prazo – um reflexo em tempo real das condições financeiras do mercado – registraram forte elevação, o que aumenta o custo de captação de dinheiro pelas instituições financeiras.

Segundo a Abecip, esse movimento não implica uma transferência automática para as taxas cobradas dos consumidores, mas pressiona a estrutura de custos das operações de crédito imobiliário. O impacto varia conforme a composição das fontes de recursos de cada banco, mas reforça a necessidade de ampliar e diversificar os instrumentos de funding disponíveis para o setor.

“O endividamento das famílias, a curva prefixada de juros inclinada e outros fatores exigem acompanhamento constante ao longo do segundo semestre”, ressaltou Cury. Hoje, as taxas de juros prefixadas oscilam em torno de 14% ou acima disso. No início do ano, estavam na faixa de 13%. Na prática, significa dizer que o teto de 12% de juros ao ano para os financiamentos do SBPE se torna uma conta mais difícil de fechar para os bancos, como já mostrou o Portas.

Poupança deixa de acompanhar expansão do crédito

Enquanto o volume de recursos da poupança permanece relativamente estável em termos nominais, o estoque de financiamentos continua crescendo. A carteira de crédito imobiliário soma R$ 601 bilhões com os dados até o primeiro semestre deste ano, enquanto os recursos da poupança direcionados para a habitação e disponíveis para empréstimo estão em R$ 535 bilhões, segundo dados compilados pela Abecip.

Até 2022, ainda havia folga de dinheiro na caderneta em relação ao total de crédito (R$ 496 bilhões versus R$ 472 bilhões), mas essa curva se inverteu em 2023 e vem ampliando a diferença desde então. Na avaliação da entidade, isso demonstra que a poupança, embora continue sendo o principal pilar do sistema, deixou de ser suficiente para sustentar sozinha a expansão do mercado.

Na prática, os bancos passaram a recorrer com maior intensidade a instrumentos de mercado e de custo maior, como as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), para complementar o financiamento das operações. A Abecip avalia que essa transformação é estrutural e deverá ganhar importância nos próximos anos. Para a entidade, a ampliação das fontes de financiamento será essencial para preservar a capacidade de crescimento do crédito imobiliário sem comprometer a estabilidade do sistema.

Jornalista Hugo Passarelli
Hugo Passarelli

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.