Veja o resumo da notícia
- A procura por instalações de carregadores de veículos elétricos em condomínios cresceu 80% no primeiro semestre de 2026, impulsionada pela frota eletrificada.
- O Brasil ganhou 4.369 novos pontos de recarga em 90 dias, uma média de um novo ponto a cada 30 minutos.
- Em São Paulo, uma nova lei permite a instalação de carregadores em vagas privativas sem aprovação em assembleia.
- O Corpo de Bombeiros de São Paulo estabeleceu parâmetros de segurança para a instalação de carregadores em garagens.
- A legislação nacional sobre o tema ainda está em desenvolvimento, gerando insegurança jurídica em outros estados.
- A instalação de carregadores pode gerar receita para o condomínio, com empresas cobrando pelo uso e repassando parte do valor.
- Condomínios precisam avaliar a capacidade elétrica do prédio e contratar profissionais para emitir laudos técnicos antes da instalação.
- Os custos de instalação variam de R$ 3 mil para projetos simples a R$ 60 mil para sistemas coletivos em condomínios.

O rápido crescimento da frota de veículos elétricos no Brasil já começa a se refletir nas garagens dos condomínios. Segundo a GreenV, a procura por instalações de carregadores cresceu 80% no primeiro semestre de 2026. Já a E-Wolf projeta expansão de cerca de 200% neste ano.
A GreenV e a E-Wolf são duas empresas que atuam no mercado de infraestrutura de recarga para veículos elétricos. Elas estão entre as companhias que registram aumento na demanda por instalações.
O avanço das instalações acompanha o crescimento da frota eletrificada no país. De janeiro a julho de 2026, foram vendidos 271 mil veículos eletrificados, número 21% superior ao registrado em todo o ano de 2025, quando as vendas somaram 224 mil unidades, segundo a ABVE Data, o departamento de estatísticas e inteligência de mercado da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico).
A expansão também aumenta a pressão por infraestrutura de recarga. Em maio, o Brasil contava com 25 mil pontos públicos e semipúblicos, segundo os dados mais recentes da ABVE. Três meses antes, eram 21 mil. O país ganhou, portanto, 4,4 mil novos pontos de recarga em cerca de 90 dias, o equivalente a uma média de um novo ponto a cada 30 minutos.
Evolução das instalações de carregadores privados
A entidade não contabiliza os dados de pontos de recarga instalados em condomínios ou residências, uma vez que eles são privados. Por isso, não há uma base consolidada que permita medir o tamanho ou o ritmo de crescimento desse segmento no país.
Os números divulgados por algumas empresas do setor, entretanto, ajudam a dimensionar a presença desse tipo de infraestrutura nas garagens dos condomínios residenciais.
A GreenV tem mais de 15 mil pontos instalados no país e estima que 60%, ou cerca de 9 mil, estejam em condomínios residenciais. A E-Wolf, que atua no setor desde 2019, informa ter instalado cerca de 20 mil carregadores residenciais e aproximadamente 30 mil carregadores portáteis.
As empresas não informam a evolução anual dos pontos instalados especificamente em condomínios ou residências. Ambas afirmam, entretanto, que a procura por serviços de instalação acompanha o crescimento da frota circulante no país.
“Nosso crescimento acompanhou a venda de veículos. À medida que o parque circulante de eletrificados aumentou, também cresceu a necessidade de instalar, ampliar ou substituir a infraestrutura de recarga. A demanda residencial, especialmente em condomínios, vem ganhando importância porque o consumidor quer ter a possibilidade de carregar o veículo na própria vaga”, afirma Thiago Castilha, sócio-diretor da E-Wolf.
Segundo Rogério Ribeiro, diretor comercial da GreenV, a mudança também aparece no perfil dos pedidos, já que antes os interessados eram os moradores, que pretendiam usar o equipamento para uso próprio. Agora, a demanda passou a envolver quem comanda os condomínios.
“Saímos de uma demanda pontual, quase individual, de moradores pioneiros, para pedidos estruturados vindos de síndicos e administradoras que já se planejam para múltiplos carregadores de uma só vez”, afirma Ribeiro.
Esse avanço na quantidade de instalações é confirmado pelo síndico profissional João Xavier, da Atma Consultoria Imobiliária. Prédios que ele administra em Moema, Vila Olímpia e na avenida Paulista já contam com carregadores para carros elétricos.
“Isso aí [instalações de carregadores elétricos em condomínnios] é uma prática que iniciou e não volta mais atrás. A tendência é só a de aumentar”
João Xavier, síndico profissional da Atma Consultoria Imobiliária
Aumento em São Paulo tem relação com mudança na lei
O crescimento não ocorre apenas porque há mais carros elétricos nas ruas. Em São Paulo, uma mudança nas regras de instalação de carregadores para veículos eletrificados nos condomínios também ajudou a destravar as instalações.
Em fevereiro, uma lei do governo paulista garantiu ao morador o direito de instalar carregadores em vagas privativas sem necessidade de aprovação em assembleia. Um mês depois, em março, o Corpo de Bombeiros baixou uma instrução técnica que estabelece parâmetros mínimos de segurança para instalar carregadores de veículos elétricos em garagens de condomínios.
Ao comentar a evolução dos dados de novos carregadores instalados entre março, abril e maio deste ano, Davi Bertoncello, diretor executivo da Tupi e diretor de Comunicação da ABVE, informou que um dos motivos da evolução das instalações foi justamente a nova regulamentação em São Paulo.
Embora não cite quantos equipamentos foram instalados após a legislação, Ribeiro, da GreenV, diz que as novas normas derrubaram uma das barreiras enfrentadas por moradores interessados em instalar os equipamentos.
“Hoje vemos a demanda se espalhar para condomínios de padrão médio e também para prédios mais antigos, em parte por conta de leis municipais e estaduais recentes, como a Lei 18.403/2026 de São Paulo, que garante ao condômino o direito de instalar um carregador em vaga privativa às próprias custas, sem depender de aprovação prévia da assembleia”
Rogério Ribeiro, diretor comercial da GreenV
Se a legislação paulista evoluiu, em âmbito nacional essa questão ainda está engatinhando, segundo representantes do setor.
“Ainda não existe uma legislação nacional específica sobre o tema, e cada município ou estado vem criando suas próprias regras, como aconteceu recentemente em São Paulo. Isso gera insegurança jurídica em condomínios de outros estados, que ainda dependem de aprovação em assembleia, processo que pode levar meses”, afirma Ribeiro.
Requisitos para instalação
Mesmo em São Paulo, a lei, sozinha, não resolveu todas as questões. A Instrução Técnica 41 (IT-41) do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo trouxe uma série de exigências para que os carregadores fossem instalados.
“Muita gente ainda está comprando carro híbrido como uma transição, e todo mundo quer, inicialmente, carregar o carro ‘na tomadinha’. O caminho é combater o desconhecimento com informação, inclusive sobre a importância de seguir as normas técnicas na instalação, o que reduz riscos”
Thiago Castilha, sócio-diretor da E-Wolf
Entre os requisitos da IT-41 estão a integração do carregador aos sistemas de alarme e combate a incêndio do edifício, dispositivos de desligamento de emergência, distância mínima em relação às rotas de fuga e alimentação elétrica vinda do quadro geral do prédio (e não mais do relógio individual do apartamento).
Ela também prevê a instalação de novos cabeamentos pelas áreas comuns e um laudo técnico prévio que ateste a capacidade elétrica do edifício e o número máximo de veículos que podem carregar ao mesmo tempo.
Carregador também pode virar fonte de receita
A lei paulista menciona que o direito à instalação sem necessidade de aprovação em assembleia, nos prédios que comportem tal projeto, vale apenas para moradores detentores de vagas privativas, vinculadas à escritura do imóvel e fixas. Elas não incluem as rotativas, modelo adotado em muitos condomínios.
“No caso da vaga rotativa, o morador tem direito ao uso, mas aquele local não é fixo dele. Então não é todo dia que ele dispõe daquela mesma vaga. Nesses casos, a solução tem sido levar o projeto para a assembleia. Dessa forma, fica uma área comum e quem chegar primeiro ali faz o uso do carregador de veículo elétrico“
João Xavier, síndico profissional da Atma Consultoria Imobiliária
Se for aprovado em assembleia, esse custo é assimilado por todos os condôminos, mesmo que não disponham de veículos elétricos. É um critério semelhante ao uso de áreas comuns, tais como academia coletiva, piscina ou manutenção das quadras, mesmo que o morador não faça uso delas.
Segundo Xavier, mesmo aqueles moradores que não possuem e nem pretendem adquirir veículos elétricos acabam entendendo que isso pode gerar uma fonte de receita para o condomínio. Ele cita como exemplos condomínios que atende em Moema, na Vila Olímpia e na avenida Paulista.
A empresa que fornece o serviço para esses prédios cobra R$ 2,20 por quilowatt-hora do morador e repassa R$ 1 ao condomínio para custear a conta de energia gerada pelo uso coletivo.
O passo a passo na prática
Com a experiência de quem já acompanhou as instalações dos prédios que administra e que já dispõem de carregadores para veículos elétricos, Xavier diz que o primeiro passo é avaliar se o prédio suporta a nova demanda.
Segundo ele, condomínios novos e antigos precisam avaliar, antes da instalação, se a estrutura elétrica suporta a nova demanda. Para isso, é necessário contratar um profissional para, entre outras coisas, avaliar a fiação, a bitola dos cabos e se a carga entregue pela concessionária é suficiente.
Esse profissional precisa emitir uma ART (Anotação de Responsabilidade Técnica). Se necessário, ao fazer a análise, ele também pode recomendar adequações. A partir daí, o modelo depende do tipo de vaga.
Os tipos mais comuns em prédios residenciais
Em condomínios com vagas privativas e fixas, estas últimas mais comuns em empreendimentos de alto padrão, o proprietário pode instalar um carregador ligado ao seu medidor individual.
Já nos condomínios com vagas rotativas, sorteadas periodicamente entre os moradores, a solução tende a ser coletiva. Uma ou mais estações de recarga são instaladas em área comum e usadas de forma compartilhada. Nesse formato, a cobrança costuma ser feita por consumo, com o morador cadastrando um cartão de crédito junto à empresa instaladora.
A E-Wolf afirma atuar na adaptação de prédios mais antigos, que não foram projetados para suportar a demanda elétrica adicional. Segundo a empresa, uma tecnologia de balanceamento dinâmico de carga, sem cobrança de assinatura ou mensalidade, permite que até cinco vagas sejam carregadas simultaneamente, independentemente da disponibilidade elétrica do prédio.
“Prédios mais antigos costumam precisar de alguma adaptação, simplesmente porque não foram projetados nem para ar-condicionado, e é aí que entram a tecnologia, a engenharia e o conhecimento técnico”
Thiago Castilha, sócio-diretor da E-Wolf
Vaga privativa ou sistema coletivo? Compare as opções
Quanto custa instalar um carregador de carro elétrico em casa
Os valores variam conforme o modelo escolhido e as condições elétricas do edifício. Segundo a E-Wolf, uma instalação simples, sem necessidade de obra, custa em torno de R$ 3 mil.
A GreenV estima entre R$ 3.800 e R$ 15 mil para uma instalação individual, dependendo da distância até o quadro de energia e da potência do carregador.
Já os projetos coletivos exigem um investimento maior, segundo Xavier. O custo varia de R$ 40 mil a R$ 60 mil por condomínio, incluindo cabeamento, quadro dedicado e sistema de gestão para múltiplas vagas.
Até o ano passado, segundo o síndico profissional, algumas empresas instalavam a infraestrutura coletiva gratuitamente como estratégia de marketing e cobravam apenas pelo uso. Com o aumento da demanda, essa prática foi abandonada.
Estacionar em local de recarga rende multa
Estacionar de forma indevida em uma vaga de garagem destinada à recarga de veículos elétricos pode render multa.
Foi o que aconteceu com um hóspede de Airbnb em um prédio em Moema administrado por Xavier. O hóspede deixou o veículo estacionado em uma vaga de recarga por três dias enquanto fazia uma viagem para Ubatuba, no litoral norte do Estado de São Paulo.
Segundo Xavier, esses casos são tratados com o mesmo protocolo aplicado às vagas de pessoas com deficiência: advertência verbal, advertência formal e, por fim, multa. No caso do hóspede de Moema, o proprietário da unidade recebeu a multa de forma direta, dada a impossibilidade dos moradores com carros elétricos de usar o equipamento.
Independentemente dos custos, das dificuldades de instalação ou das regras que precisam ser adotadas, a tendência é a de que cada vez mais esses equipamentos ganhem espaços nas garagens dos prédios residenciais, segundo o síndico profissional.
“Os condomínios que não se adequarem para isso vão ficar para trás e vão perder valor de mercado”
João Xavier, síndico profissional da Atma Consultoria Imobiliária









