Veja o resumo da notícia

  • O mercado imobiliário corporativo brasileiro registra recordes históricos de ocupação em escritórios de alto padrão e galpões logísticos.
  • A vacância em escritórios de alto padrão em São Paulo atingiu 13,1%, abaixo dos níveis pré-pandemia, com escassez de grandes lajes corporativas.
  • No Rio de Janeiro, a taxa de vacância para escritórios de alto padrão caiu para 25,3%, a menor em 11 anos, com alta nos preços de aluguel.
  • O segmento industrial e logístico apresenta vacância média nacional de 5,5%, com São Paulo registrando 5% e Guarulhos apenas 1%.
  • Empresas de comércio eletrônico, como Mercado Livre e Shopee, são as principais responsáveis pelo crescimento do setor logístico.
  • A alta demanda por espaços de qualidade eleva os preços e favorece proprietários e investidores em fundos imobiliários.
lajes corporativas Faria Lima
Cristian Lourenço/iStock

O mercado imobiliário corporativo brasileiro parece ter deixado para trás um dos principais legados da pandemia: o excesso de espaços vazios. Relatórios divulgados nesta quarta-feira (22) pela subsidiária brasileira da consultoria internacional JLL indicam que o setor imobiliário comercial brasileiro entrou de vez num novo desafio: o de achar espaços disponíveis nos endereços mais disputados do país.

Os dados do segundo trimestre deste ano revelam recordes históricos de ocupação em dois segmentos do setor, o de escritórios e industrial, este último muito influenciado pela demanda de empresas de logística.

Escritórios de alto padrão em São Paulo

No caso de escritórios de padrão A ou superior (os de localização privilegiada e dotados de tecnologia avançada) em São Paulo, a taxa de vacância atingiu 13,1%, índice inferior ao da época da pré-pandemia. A taxa de vacância indica quanto do estoque total de um empreendimento está disponível para locação.

A consequência desse movimento já aparece na oferta. Nas regiões mais valorizadas da cidade, como Faria Lima, Itaim Bibi e Paulista, não existem lajes corporativas com mais de 10 mil metros quadrados disponíveis, segundo a consultoria. A escassez ocorre após oito trimestres consecutivos com transações acima dessa metragem.

PORTAS

Avanço do Mercado de Escritórios e Galpões

Termômetro do setor imobiliário corporativo no Brasil

São Paulo
> 10 mil m²
Zero Espaços
Lajes corporativas acima dessa metragem simplesmente sumiram dos eixos Faria Lima, Itaim Bibi e Paulista.
Logística
1%
Guarulhos Esgotado
A vacância logística despencou para nível histórico na principal região distribuidora do estado.
Rio de Janeiro
25,3%
Rio em Alta
A taxa de escritórios vagos na capital fluminense atingiu a menor marca dos últimos 11 anos.
Valorização
+32,7%
Preços no Topo
Alta acumulada no valor do aluguel de escritórios de alto padrão (A+) em São Paulo desde 2024.
Fonte: JLL / Pesquisa de Mercado PORTAS

No caso da Rebouças, por exemplo, que encerrou o segundo trimestre com vacância zero depois de todo o estoque ser absorvido, já não há mais disponibilidade de escritórios de alto padrão, segundo a JLL. O maior movimento ocorrido no endereço foi o da Amazon, que ocupará todos os 39 mil metros quadrados do Biosquare, um prédio de cerca de 130 metros de altura.

O reflexo desse movimento pressiona os preços, que acumulam alta de 32,7% desde o primeiro trimestre de 2024. No segundo trimestre deste ano, o valor médio por metro quadrado chegou a R$ 126, com pico de R$ 313.

Cenário no Rio de Janeiro e fim dos descontos

O Rio também apresentou bons números no segundo trimestre de 2026. A pesquisa da JLL mostra que a taxa de vacância dos escritórios de alto padrão caiu para 25,3%, a menor dos últimos 11 anos, enquanto o preço pedido médio ficou em R$ 77 por metro quadrado. Na Orla, onde estão localizados os prédios de padrão superior, os valores subiram 29,3% em apenas um ano.

Seja em São Paulo ou no Rio, o que os números mostram é que descontos e carências para segurar inquilinos já não dão as cartas nas negociações. Se na pandemia os escritórios ficaram vazios e a vacância disparou, agora a explosão de demanda por escritórios está totalmente a favor do proprietário.

Vai faltar galpão

A falta de espaço não é exclusividade do mercado corporativo. Segundo a JLL, o segmento industrial e logístico atravessa o momento mais aquecido de sua série histórica. A vacância média nacional caiu para 5,5%, enquanto São Paulo atingiu seu menor índice já registrado, de 5%. Em Guarulhos, a “Faria Lima” do mercado logístico, praticamente já não existe mais nada, já que a taxa de vacância atingiu 1%.

O dado chama a atenção porque o mercado praticamente dobrou de tamanho desde 2019, crescendo, em média, 12% ao ano. Esse crescimento extrapola o mercado paulista, que é líder no país, e abre espaço para Estados como Santa Catarina e Pernambuco também assumirem o protagonismo, já que foram os que registraram maior absorção líquida, indicador que mede o saldo entre novas ocupações e devoluções de áreas.

Os grandes responsáveis por esse desempenho são as empresas de comércio eletrônico, sobretudo o Mercado Livre e a Shopee. Juntas, as duas responderam por 33% das absorções realizadas no segundo trimestre deste ano. Elas também ocuparão 1,1 milhão de metros quadrados de áreas pré-locadas para entrega no segundo semestre.

Impacto para investidores e proprietários

Os indicadores da JLL não são um caso isolado. Levantamentos recentes da Cushman & Wakefield e da Newmark reforçam a tese de vacância em patamares historicamente baixos e valorização dos preços pedidos dos escritórios de alto padrão, mesmo com a entrada de novos empreendimentos no mercado. 

A Cushman registrou taxa de vacância de 11,4% e preço pedido médio de R$ 148,25 por metro quadrado. Já a Newmark mostrou que a vacância caiu para 14,3% mesmo após a entrega de 53 mil metros quadrados de novos escritórios no segundo trimestre. A diferença nos números entre as consultorias se dá pelo universo analisado e valores aferidos.

Independentemente da metodologia adotada por cada consultoria e o universo que cada uma pesquisa, fato é que todas elas indicam que o jogo virou.

Para quem precisa encontrar grandes áreas para instalar escritórios ou ampliar operações logísticas ou industriais, a vida ficou mais complicada e está enfrentando pouca oferta de bons espaços, além de elevação de preços.

Por outro lado, donos desses imóveis e gestores já não precisam recorrer aos descontos e às longas carências que marcaram o período pós-pandemia para reduzir a vacância e segurar inquilinos. Prevalece a lei da oferta e procura, com imóveis de qualidade cada vez mais disputados, o que abre espaço para renegociações e reajustes.

O movimento também interessa a quem investe no setor, inclusive em fundos imobiliários com participação em escritórios e galpões. Com imóveis mais ocupados e aluguéis em alta, esses ativos tendem a gerar mais receita, o que pode se refletir em melhores retornos para os investidores.

Correção: Uma versão anterior do texto informava erroneamente que a taxa de vacância era calculada com base na área disponível para locação e o total ocupado. A informação foi corrigida.

Clayton Freitas

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.