Veja o resumo da notícia
- A hesitação pré-eleitoral no mercado imobiliário é um fenômeno real, mas pode levar à perda de oportunidades.
- Estudos mostram que empresas reduzem investimentos em anos eleitorais, e consumidores adiam decisões de compra.
- Os pilares do mercado imobiliário brasileiro são de Estado, não de governo, e não são afetados por eleições.
- Programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida permanecem ativos, independentemente do governo.
- Eleições passadas, como 2018 e 2022, não derrubaram o mercado imobiliário, que registrou crescimento.
- Adiar a compra de imóvel pode significar perder janelas de negociação e o melhor momento do ciclo de preços.

Estamos em julho de 2026 e a cena começa a se repetir em plantões de vendas, imobiliárias e conversas de família: “vou esperar a eleição passar”. À medida que outubro se aproxima, decisões de mudança são adiadas, propostas ficam em banho-maria e até contratos de aluguel entram em compasso de espera.
Será que faz sentido deixar a urna decidir o endereço da sua família? A hesitação pré-eleitoral é real, mensurável e acontece em vários mercados ao redor do mundo. O que ela não é, quando olhamos a história do mercado imobiliário brasileiro, é uma boa conselheira.
A hesitação tem nome e número
A literatura econômica chama esse comportamento de wait and see (esperar para ver): diante da incerteza, indivíduos e empresas atribuem valor à espera e adiam decisões difíceis de reverter. Um estudo publicado no Journal of Finance analisou eleições em 48 países e encontrou um padrão consistente: empresas reduzem investimentos, em média, 4,8% em anos eleitorais, e o efeito tende a ser mais intenso quando a disputa é mais apertada.
No Brasil, o Indicador de Incerteza da Economia da FGV (o IIE-Br, que mede a incerteza a partir de notícias e da dispersão das projeções de analistas) costuma refletir esse clima: desde a crise de 2015 e 2016, raramente voltou a níveis considerados confortáveis, e ciclos eleitorais aparecem entre os vetores que dificultam a leitura do futuro.
O consumidor sente. Pesquisa da Neogrid com o Opinion Box aponta que 36% dos brasileiros dizem que o período eleitoral afeta muito suas decisões de compra em 2026. No imobiliário, levantamento divulgado pela Loft indica que 35% pretendem antecipar ou adiar a compra do imóvel nos próximos 12 meses por causa das eleições. E estudo do Grupo OLX com interessados em comprar imóvel sugere que 25% consideram o cenário eleitoral na decisão; entre esses, 42% passaram a procurar imóveis mais baratos. São pesquisas de opinião, com amostras e metodologias distintas, e merecem a leitura cautelosa de sempre. Mas todas apontam na mesma direção.
Nos Estados Unidos, o fenômeno aparece em janelas curtas: análises de consultorias do setor identificaram quedas mais acentuadas nas vendas de imóveis novos entre outubro e novembro de anos de eleição presidencial, com recuperação logo depois. A hesitação existe, se intensifica perto do pleito e, em geral, se dissolve quando o resultado sai.
O que a eleição não muda no mercado imobiliário
Aqui entra a pergunta que poucos se fazem no plantão de vendas: o que, exatamente, um novo presidente poderia desmontar no mercado imobiliário brasileiro?
Os pilares que sustentam o setor não são de governo, são de Estado. A estabilização da moeda nos anos 1990. A Lei do Inquilinato (Lei 8.245/91), que organizou a locação. A alienação fiduciária (Lei 9.514/97, mecanismo em que o imóvel serve de garantia do próprio financiamento), que deu segurança ao crédito e se mostrou mais eficiente que o modelo hipotecário americano que colapsou em 2008. O patrimônio de afetação (Lei 10.931/2004, que separa o empreendimento do caixa da incorporadora), que protegeu o comprador na planta. Some-se o bônus demográfico, com milhões de brasileiros em idade de formar família e demandar moradia.
Até a política habitacional virou consenso compulsório: do programa do final do governo FHC ao Minha Casa, Minha Vida, rebatizado de Casa Verde e Amarela e devolvido ao nome original, entra governo, sai governo, e o incentivo à habitação popular permanece. Neste ciclo, aliás, o programa opera com estímulo raramente visto, justamente em ano eleitoral.
Os números recentes reforçam: 2018 e 2022, ambos anos de eleição presidencial, não derrubaram o mercado. As vendas cresceram no primeiro; o crédito imobiliário registrou o segundo maior volume da história no segundo.
Quem paga a conta da espera eleitoral
Se o mercado atravessa eleições, quem carrega o custo da hesitação tende a ser o indivíduo. Quem adia pode perder janelas de negociação que se abrem exatamente quando a concorrência de compradores diminui. Pode assistir ao ciclo de preços seguir seu curso. Pode adiar, junto com a escritura, projetos de vida que não cabem em calendário eleitoral.
E há uma ironia neste 2026: com a Selic em trajetória de queda, a economia crescendo e o programa habitacional turbinado, o momento em que mais se hesita pode ser um dos momentos em que as condições mais favorecem quem precisa comprar. Não se trata de recomendação de compra; cada família tem sua conta, seu risco e seu tempo. Trata-se de separar o que a eleição muda de fato do que ela apenas parece ameaçar.
A incerteza é legítima e esperar tem sua lógica. Mas os fundamentos do mercado imobiliário brasileiro atravessaram sete eleições presidenciais desde o Plano Real sem se abalar.
Fontes consultadas: Julio, B.; Yook, Y. Political Uncertainty and Corporate Investment Cycles (Journal of Finance, 2012); FGV/IBRE, Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br); Neogrid/Opinion Box, pesquisa de consumo 2026; Loft/Portas, levantamento sobre eleições e planejamento imobiliário (jan/2026); Grupo OLX, pesquisa com compradores de imóveis (abr/2026); Meyers Research via Forbes (vendas de imóveis novos em anos eleitorais nos EUA); CBIC/Abecip via Portas (vendas 2018 e crédito imobiliário 2022).
Claudino é especialista e analista do mercado imobiliário, com aproximadamente 20 anos de atuação no setor. Atua como curador de eventos que conectam especialistas e agentes do mercado em diferentes regiões do Brasil, promovendo formação, análise crítica e inovação. É também sócio da Área 38 e conselheiro estratégico das empresas Aluu, Tikpag, Pipeimob e Squad Realty. Na Loft, atua como consultor com foco em inteligência comercial, integração institucional e performance de produtos. É autor dos livros “A Natureza do Mercado Imobiliário” e “Ontem, Hoje e Amanhã”, obras que propõem uma leitura ampliada e multidisciplinar sobre a moradia, o urbanismo e a evolução dos sistemas imobiliários. Atualmente, Claudino está radicado em Toronto, no Canadá, onde segue colaborando com iniciativas que antecipam o futuro do setor com consistência técnica, visão crítica e sensibilidade prática.
Claudino é especialista e analista do mercado imobiliário, com aproximadamente 20 anos de atuação no setor. Atua como curador de eventos que conectam especialistas e agentes do mercado em diferentes regiões do Brasil, promovendo formação, análise crítica e inovação. É também sócio da Área 38 e conselheiro estratégico das empresas Aluu, Tikpag, Pipeimob e Squad Realty. Na Loft, atua como consultor com foco em inteligência comercial, integração institucional e performance de produtos. É autor dos livros “A Natureza do Mercado Imobiliário” e “Ontem, Hoje e Amanhã”, obras que propõem uma leitura ampliada e multidisciplinar sobre a moradia, o urbanismo e a evolução dos sistemas imobiliários. Atualmente, Claudino está radicado em Toronto, no Canadá, onde segue colaborando com iniciativas que antecipam o futuro do setor com consistência técnica, visão crítica e sensibilidade prática.







