Geração Z e Millennials no mercado imobiliário

Os Millennials e a Geração Z estão redefinindo as dinâmicas em torno do que representa a moradia. Mais conectadas e preocupadas com qualidade de vida, essas gerações valorizam flexibilidade, localização estratégica e processos simplificados.

Ao mesmo tempo, fatores como juros elevados, aumento do preço dos imóveis e mudanças no mercado de trabalho estão alterando a relação desses consumidores com a casa própria.

Este artigo examina os principais tópicos a respeito da relação entre as gerações mais jovens e o mercado imobiliário, incluindo tendências de imóveis e padrões de atendimento que devem ganhar força a médio e longo prazo. Confira a seguir:

O que diferencia Millennials e a Geração Z no mercado imobiliário?

Quem são os Millennials?

Os Millennials, também conhecidos como Geração Y, nasceram aproximadamente entre 1981 e 1996. Trata-se de um grupo, portanto, que hoje tem entre 30 e 45 anos e foi profundamente marcado pela transição entre o world analógico e o digital.

Outro ponto relevante com relação à geração Y é o fato de que cresceram em um ambiente de mudanças econômicas profundas e um cenário geral de maior instabilidade. É o que pontua Cristina Gravina, professora de marketing imobiliário na pós-graduação da ESPM, ao Portas.

“O valor central dessa geração é a flexibilidade: eles ainda valorizam patrimônio, segurança e, em muitos casos, a casa própria, mas precisam que essa decisão caiba em uma rotina mais complexa — com trabalho híbrido, pressão financeira, mudanças familiares e necessidade de mobilidade”, descreve. “A flexibilidade, nesse caso, está muito ligada a conseguir adaptar a moradia ao momento de vida sem abrir mão de estabilidade.”

Quem é a Geração Z?

Já aqueles que nasceram entre 1997 e 2012, aproximadamente, são conhecidos como a Geração Z.

São a primeira geração a nascer em um ambiente totalmente digital, com acesso constante à internet, redes sociais e dispositivos móveis. Além disso, foram impactados pela pandemia em um momento mais decisivo para a sua formação pessoal e profissional.

Gravina a define como uma geração que, além de naturalizar a tecnologia, combina o trabalho formal com outras fontes de renda e tende a enxergar a carreira de forma menos linear.

“Nesse caso, eu diria que o seu valor central é a liberdade: para experimentar bairros, para mudar de cidade, para testar formatos de vida, para não se comprometer cedo demais com um financiamento e para escolher uma moradia que faça sentido dentro de um estilo de vida mais fluido”, reflete.

Em comum, tanto millennials quanto a geração Z valorizam a praticidade e dão mais valor ao tempo livre. Na avaliação da professora, isso significa que muitas vezes estão dispostos a abrir mão da metragem em um apartamento em troca de uma localização que ofereça mobilidade, lazer, qualidade de vida e cujo preço esteja adequado a suas realidades financeiras.

Por que essas gerações são importantes para o setor imobiliário?

Segundo dados do Censo de 2022 do IBGE, mais de 45% da população brasileira tem entre 15 e 44 anos e são, portanto, integrantes das gerações Y e Z.

Isso significa que as preferências desses grupos tendem a moldar os produtos imobiliários, estratégias comerciais e modelos de atendimento do setor pelas próximas décadas. E isso já vem acontecendo:

“Millennials, de 29 a 44 anos, e Geração Z estão impulsionando a demanda [imobiliária] por motivos ligados à independência, como sair do aluguel e deixar a casa dos pais. O foco deixou de ser apenas a troca por um imóvel maior para atender ao crescimento da família. Hoje, a prioridade é conquistar a primeira moradia e construir autonomia”, ressalta Guilherme Werner, sócio-consultor da Brain Inteligência Estratégica.

O mito da preferência pelo aluguel

“Durante algum tempo, houve a expectativa de que as gerações mais jovens priorizariam a flexibilidade em vez da propriedade. Mas os dados de 2026 mostram que o desejo pela casa própria continua muito forte no Brasil”, explica o sócio-consultor da Brain.

Essa conclusão também foi observada em uma pesquisa da Loft em parceria com a Offerwise. Segundo o estudo, 29% dos millennials planejam comprar um imóvel nos próximos 12 meses, ao mesmo tempo em que a geração Z aparece com 23%.

Por meio da intenção de compra em alta, a pesquisa contrariou o senso comum de que os mais jovens dariam preferência ao aluguel: os dados coletados mostraram que a maioria dos jovens rejeita a locação como opção viável a longo prazo.

“O percentual de pessoas que afirmam querer sair do aluguel passou de 32% em março de 2025 para 38% em março de 2026, consolidando esse fator como o maior impulsionador do mercado. Para boa parte dos jovens, o aluguel é visto como uma etapa temporária e não como um projeto de vida”, reforça Guilherme Werner.

O sonho da casa própria é adiado

Embora ambas as gerações apresentem índices elevados de intenção de compra no que diz respeito ao setor imobiliário, o cenário econômico — marcado por inflação e juros em patamares elevados — gera um descompasso entre intenção e capacidade de compra para esses grupos.

Segundo o sócio-consultor da Brain Inteligência Estratégica Guilherme Werner, os preços elevados empurram o consumidor a opções mais acessíveis, como apartamentos de menor metragem.

“Embora a preferência da população seja por casas, com 47% desejando casas de rua e 14% casas em condomínio, o contexto de juros elevados e preços mais altos acaba redirecionando as escolhas: na prática, os apartamentos representam 43% das compras efetivas e os terrenos, 20%, enquanto as casas respondem por apenas 26% das aquisições”. Os dados são de uma pesquisa sobre a intenção de compra conduzida pela empresa no primeiro trimestre de 2026.

O mesmo estudo também mostra que as faixas de preço de até R$ 200 mil e entre R$ 200 mil e R$ 400 mil concentraram quase 80% das transações no trimestre.

Como Millennials e a Geração Z escolhem um imóvel?

A localização continua sendo prioridade?

Assim como em gerações anteriores, a localização segue sendo o principal critério.

A novidade das gerações mais jovens com relação às passadas, segundo Cristina Gravina, é a valorização de serviços no condomínio, ou em suas proximidades, que facilitam a rotina.

“As características mais valorizadas são aquelas que economizam tempo, simplificam a rotina e ampliam o uso do imóvel. Entram aqui boa localização, mobilidade, conectividade, segurança, espaços para home office, coworking, academia, lavanderia compartilhada, lockers, espaços para delivery, áreas pet, bicicletário, minimercado e áreas de convivência”, cita a professora.

Os imóveis compactos ganharam espaço?

Nesse sentido, os imóveis de menor metragem ganham força quando estão localizados em condomínios que oferecem serviços e são localizados em regiões centrais.

“A diferença em relação às gerações anteriores é clara: antes, o valor estava muito concentrado na unidade privativa — metragem, número de quartos, vaga e varanda. Hoje, principalmente para Millennials e Geração Z, o valor está mais distribuído entre apartamento, prédio, serviços, bairro e experiência de uso”, explica a docente de marketing imobiliário.

Quais tendências devem crescer com Millennials e a Geração Z?

“Nos próximos anos, acredito que Millennials e Geração Z devem pressionar o mercado imobiliário brasileiro em direção a produtos mais compactos, porém mais bem localizados, mais flexíveis e mais conectados ao estilo de vida urbano”, resume Gravina.

“E isso vale também para famílias pequenas, como casais com um filho, ou casais que precisam de um escritório em casa. O tamanho, por si só, tende a deixar de ser mandatório.”

Já Guilherme Werner aposta em três tendências que devem se aprofundar graças aos Millennials e à Geração Z: a verticalização nas capitais, maiores volumes de vendas de imóveis com preços menores e investimentos in locação.

“Com a Geração Z liderando a intenção de compra e demonstrando preferência por apartamentos, a tendência é que as incorporadoras ampliem a oferta de empreendimentos verticais, bem localizados, funcionais e com soluções tecnológicas. Como 38% dos consumidores querem sair do aluguel e a maior parte das compras está concentrada em imóveis de até R$ 400 mil, o desafio será desenvolver produtos financeiramente viáveis para esse público”, explica.

Ao mesmo tempo, Werner pontua que, embora os mais jovens ainda tenham o desejo de adquirir a casa própria, o aluguel ainda deve fazer parte da realidade desse público em algum momento. Dessa forma, investidores seguem ampliando sua atuação para atender à demanda daqueles que ainda permanecerão algum tempo no mercado de locação.

Outras tendências que devem se aprofundar com o avanço das gerações conectadas sobre o mercado imobiliário são as chamadas smart homes, que contam com soluções como automação residencial e assistentes virtuais.

Modelos de locação mais flexíveis, contratos simplificados e soluções híbridas na hora de escolher e comprar um imóvel também devem crescer nos próximos anos.

Como as imobiliárias precisam se adaptar?

As gerações Y e Z trazem ainda mais protagonismo aos canais digitais na hora de buscar um imóvel, com destaque especial para as redes sociais.

“A Geração Z não se convence apenas com anúncios. Ela pesquisa, compara, busca depoimentos, vê redes sociais, acompanha experiências reais de outras pessoas e valoriza, sobretudo, autenticidade”, descreve Gravina.

Nesse sentido, a coleta e a publicação de relatos de clientes que já usaram o serviço daquela imobiliária se torna uma etapa indispensável.

Existem, ainda, algumas outras estratégias que ganham relevância, como:

  • A produção de conteúdo educativo para as redes sociais, como forma de gerar confiança com o público;
  • Uso de técnicas de SEO para ampliar a visibilidade da imobiliária em buscadores como o Google;
  • A produção de vídeos curtos para as redes sociais;
  • A manutenção de uma boa média de avaliações online em diferentes portais.

O que os jovens esperam do atendimento imobiliário?

Segundo uma pesquisa da Offerwise, feita a pedido da Loft, consumidores em geral têm uma boa avaliação dos serviços prestados por imobiliárias: 81% dos entrevistados afirmam que as recontatariam.

Porém, dentre as principais queixas ao setor, estão a demora no retorno (citada por cerca de 39% dos entrevistados que haviam recém-contratado uma imobiliária), a falta de transparência (mencionada por 34% dos recém-contratantes) e a pressão exagerada para fechar o negócio (criticada por 36% dos entrevistados).

Por isso, alguma expectativas se tornaram praticamente obrigatórias:

  • Resposta rápida
  • Transparência
  • Informações claras
  • Comunicação digital
  • Menos burocracia

Perguntas frequentes (FAQ)

A Geração Z quer comprar imóvel?

Sim. No entanto, enfrenta desafios financeiros maiores que gerações anteriores, o que pode adiar essa decisão.

Millennials ainda valorizam a casa própria?

Sim. Tanto Millennials quanto a Geração Z apresentam altos índices de interesse na compra de um imóvel em diferentes pesquisas realizadas no setor.

O aluguel está substituindo a compra?

Não. Mas, embora a intenção de compra entre os mais jovens seja alta, a realidade financeira faz com que o aluguel passe a ser visto como uma alternativa mais flexível, especialmente em determinadas fases da vida.

O home office continua influenciando a escolha dos imóveis?

Sim. Espaços adaptáveis para trabalho remoto permanecem entre os atributos valorizados.

Sustentabilidade impacta o valor do imóvel?

Empreendimentos com atributos sustentáveis podem se tornar mais atrativos para parte dos consumidores e apresentar vantagens competitivas no mercado, sobretudo aqueles que visam eficiência energética e aliviam as contas do dia a dia.

Jornalista Luiza Queiroz
Luiza Queiroz

Luiza Queiroz é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), com especialização em jornalismo de dados pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). Acumula experiência em grandes veículos da imprensa nacional, como Veja, O Estado de S. Paulo e Casa Vogue, onde desenvolveu reportagens e conteúdos digitais sobre mercado imobiliário, arquitetura e decoração. Desde 2021, atua na equipe de checagem de fatos da Agence France-Presse (AFP), em São Paulo. Colabora com o Portas como jornalista autônoma, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.

Luiza Queiroz é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), com especialização em jornalismo de dados pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). Acumula experiência em grandes veículos da imprensa nacional, como Veja, O Estado de S. Paulo e Casa Vogue, onde desenvolveu reportagens e conteúdos digitais sobre mercado imobiliário, arquitetura e decoração. Desde 2021, atua na equipe de checagem de fatos da Agence France-Presse (AFP), em São Paulo. Colabora com o Portas como jornalista autônoma, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.