Veja o resumo da notícia

  • A Caixa Econômica Federal passou a reconhecer como formal a renda de motoristas e entregadores de aplicativos, como Uber e iFood, para análise de crédito
  • A comprovação de renda agora pode ser feita por meio dos extratos de recebimentos fornecidos pelas próprias plataformas digitais
  • A mudança amplia as possibilidades de acesso desses trabalhadores ao financiamento habitacional, inclusive pelo programa Minha Casa, Minha Vida
  • Segundo dados do IBGE, o Brasil tinha cerca de 1,7 milhão de trabalhadores por aplicativo no terceiro trimestre de 2024, com rendimento médio de R$ 2.996 por mês
  • Com a nova regra, trabalhadores que atendam aos critérios de renda do programa poderão financiar imóveis com condições previstas nas faixas do Minha Casa, Minha Vida.
Trabalhador em bicicleta e mochila do iFood
Trabalhadores em aplicativos terão renda reconhecida mais facilmente pela Caixa para financiamentos no MCMV - Imagem: Jair Ferreira Fotografo / iStock

A Caixa Econômica Federal passou a considerar como formal a renda de profissionais que atuam em plataformas de mobilidade e delivery, como Uber e iFood. A medida já está em vigor e foi confirmada pelo banco estatal nesta terça-feira (21). Na prática, a mudança reconhece os rendimentos obtidos por esses trabalhadores para concessão de produtos financeiros e análises de concessão de crédito, o que abre espaço para incluir esse grupo no Minha Casa Minha Vida.

Desde a semana passada, circula nas redes sociais a informação sobre a mudança normativa da Caixa, com enfoque na possibilidade de compra da casa própria por trabalhadores de aplicativo. O Portas confirmou com um correspondente bancário da Caixa o repasse da orientação. Correspondentes bancários são utilizados pelos bancos como uma extensão da agência, geralmente para desafogar o atendimento ou realizar análises mais complexas, como liberação de um financiamento.

“A partir de agora, a comprovação de renda será feita com base nos extratos de recebimentos fornecidos pelas próprias plataformas digitais. Antes, esses rendimentos eram classificados como renda informal”, confirmou a Caixa, em nota oficial.

Segundo o banco estatal, a mudança de metodologia vai aperfeiçoar o processo de análise de crédito para esse público. “Embora esses profissionais já pudessem comprovar renda e acessar produtos financeiros, o reconhecimento como renda formal permite uma análise ainda mais completa de sua capacidade de pagamento, possibilitando à Caixa oferecer soluções mais alinhadas ao perfil financeiro de cada cliente”, diz o banco.

Quantos trabalhadores em aplicativos há no Brasil

A projeção oficial é que existiam, no terceiro trimestre de 2024, pelo menos 1,7 milhão de trabalhadores por aplicativo no Brasil. O rendimento médio chegava a R$ 2.996 por mês, 4,2% maior do que o de trabalhadores não plataformizados.

Trabalhadores de aplicativo no Brasil — dados IBGE (3º trimestre 2024)

Total de trabalhadores
1,7 milhão
Rendimento médio mensal
R$ 2.996 (4,2% acima da média dos não plataformizados)
Jornada semanal média
44,8 horas (ante 39,3h dos demais trabalhadores)
Renda média de entregadores
R$ 2.340 mensais (abaixo da média da categoria)

Fonte: IBGE, Pnad Contínua (microdados). Dados classificados pelo IBGE como “experimentais”.

No entanto, a jornada de trabalho é mais extensa para quem obtém renda por meio de uma plataforma, de 44,8 horas semanais, ante 39,3 horas para os demais profissionais. Na prática, o salário-hora do primeiro grupo é menor.

E mesmo dentro da categoria há diferença de renda: os trabalhadores de aplicativos de entrega têm ganhos menores do que a média, estimados em R$ 2.340 mensais.

Os dados são de levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). O IBGE considera essas estatísticas como “experimentais”, ou seja, são uma primeira tentativa de quantificar esses trabalhadores.

Faixas do Minha Casa Minha Vida

Segundo a Caixa, as regras atuais do Minha Casa Minha Vida podem ser aplicadas para enquadramento dos trabalhadores de aplicativo no programa habitacional. Atualmente, as faixas de renda familiar e valor de imóvel são:

Faixa Renda Familiar Mensal Valor Máximo do Imóvel
Faixa 1 Até R$ 3.200 Até R$ 275 mil
Faixa 2 De R$ 3.200,01 a R$ 5.000 Até R$ 275 mil
Faixa 3 De R$ 5.000,01 a R$ 9.600 Até R$ 400 mil
Classe Média Até R$ 13.000 Até R$ 600 mil

As estimativas de renda média do IBGE apontam que os trabalhadores de aplicativo podem ficar, ao menos, dentro dos critérios da Faixa 1 do Minha Casa Minha Vida – isso considerando este trabalhador como fonte única de renda em cada unidade familiar. Neste caso, o imóvel financiado pode ter valor entre R$ 210 mil e R$ 275 mil, a depender da região do país, com juros de 4% a 5,25% ao ano.

O Minha Casa Minha Vida tem um orçamento recorde para 2026, estimado em ao menos R$ 180 bilhões, e tem sido o segmento mais dinâmico do mercado imobiliário, dominando lançamentos e vendas.

Perguntas e respostas sobre financiamento imobiliário para trabalhadores de aplicativos

Motorista de Uber pode financiar imóvel pelo Minha Casa, Minha Vida?

Sim. Com a nova medida da Caixa Econômica Federal, a renda de motoristas de aplicativos como Uber passou a ser reconhecida como formal para fins de crédito. Isso significa que esses trabalhadores podem usar seus rendimentos para comprovar renda e se enquadrar nas faixas do Minha Casa Minha Vida, desde que atendam aos critérios de renda familiar do programa.

Como o entregador de iFood comprova renda na Caixa?

A comprovação é feita por meio dos extratos de recebimentos fornecidos pela própria plataforma digital — no caso do iFood, o histórico de pagamentos disponível no aplicativo ou portal do parceiro. Esses documentos substituem a carteira de trabalho ou o contracheque como comprovante de renda formal.

Qual faixa do MCMV se aplica para trabalhadores de aplicativo?

Depende da renda familiar total. Com base nos dados do IBGE, a renda média dos trabalhadores de aplicativo é de R$ 2.996 mensais — o que os enquadra na Faixa 1 (até R$ 3.200), considerando o trabalhador como única fonte de renda da família. Entregadores, com renda média menor (R$ 2.340), também se enquadram na Faixa 1. Quem tem renda familiar maior pode acessar as faixas 2 ou 3.

O que mudou na prática com essa decisão da Caixa?

Antes, a renda de motoristas e entregadores de aplicativo era classificada como informal pela Caixa. Agora, ela é reconhecida como renda formal, o que permite uma análise de crédito mais completa e potencialmente melhores condições de financiamento. Na prática, mais trabalhadores de plataforma poderão acessar o Minha Casa Minha Vida e outros produtos da Caixa.

Trabalhadores de outras plataformas também são incluídos?

Sim, a mudança vale para trabalhadores em aplicativos no geral, não apenas iFood ou Uber.


Jornalista Hugo Passarelli
Hugo Passarelli

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.