
Assisti a um painel no Blueprint Vegas com alguns dos players mais interessantes do mercado imobiliário global, com a participação de Mate Pencz, CEO da Loft, maior plataforma de soluções imobiliárias do Brasil, e de quem está construindo do zero a infraestrutura do setor na Arábia Saudita. Saí com uma certeza: inovação em real estate (mercado imobiliário) deixou de ser um produto de exportação americano.
Três ideias ficaram na minha cabeça:
1. Confiança é infraestrutura
Num mercado sem registros padronizados, quem constrói confiança constrói o mercado. O case saudita mostrou isso na prática: em vez de esperar o ambiente perfeito, a empresa construiu a base (dados, precificação, tecnologia) e conectou essa estrutura a milhares de imobiliárias locais, que já tinham o relacionamento e a confiança de cada bairro. Cidade por cidade, sem atalho e sem ilusão de crescimento explosivo. Como disseram no painel: confiança se constrói tijolo por tijolo, e se constrói testando.
O paralelo com o Brasil é direto. Nosso mercado também tem fricção alta e assimetria de informação. Quem resolver a camada de confiança aqui, com dados, histórico e verificação, destrava velocidade de transação. Isso vale para incorporadoras, imobiliárias e para quem cria conteúdo no setor.
2. Governo pode ser acelerador, não só obstáculo
A Arábia Saudita fez em dez anos o que mercados maduros não fizeram em cinquenta. Isso incluiu um mandato claro vindo de cima, crédito imobiliário saindo de quase zero para uma fatia relevante das transações, a criação da figura do mortgage broker e um sandbox regulatório dentro da própria autoridade imobiliária, que passou a dar a startups acesso a dados (zoneamento, por exemplo) e ajuda para navegar aprovações.
3. O consumidor não vai mais aceitar um processo de muitas etapas
A pergunta final do painel foi direta: qual peça do sistema legado (MLS, title insurance, credit score, corretagem tradicional) morre primeiro nos próximos cinco anos? A melhor resposta não foi uma peça, foi o processo inteiro. Hoje o comprador precisa aprender o que é title, entender como funciona o financiamento, falar com mortgage broker, corretor e mais cinco ou seis pessoas para atravessar um processo com muitas etapas. Quem compra qualquer coisa com um clique no e-commerce não vai aceitar isso por muito mais tempo. As empresas que entregarem a jornada completa, do início ao fim, vão simplesmente pular a infraestrutura legada.
Houve ainda uma provocação certeira sobre o title insurance americano: é como ir a um restaurante e o chef obrigar você a pagar um seguro contra dor de barriga.
Minha visão
O Brasil está mais perto da Arábia Saudita do que dos EUA nesse jogo: mercado grande, fricção alta, confiança escassa. Isso não é defeito, é oportunidade. Quem construir aqui a camada de confiança e a jornada simples de compra não vai estar copiando ninguém. Vai estar na frente.
Saiba mais sobre a cobertura do Blueprint Vegas 2026 no Portas:
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