Grosso dos reajustes ocorreu em fevereiro e março, mas há repasses com efeito previsto para maio
Grosso dos reajustes ocorreu em fevereiro e março, mas há repasses com efeito previsto para maio

Ainda sem perspectiva de fim, a guerra entre Estados Unidos e Irã começa a se traduzir em impacto real nos custos da construção civil. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia (FGV/Ibre) com produtores industriais de insumos para o setor identificou reajustes disseminados já aplicados ou em fase de implementação. A estimativa é de impacto de 3,89 ponto percentual no Índice Nacional da Construção Civil (INCC-M) em 2026, o que pode levar o indicador para alta acumulada de 9,72% no ano.

O aumento pode ter impacto nos preços dos imóveis e no custo do financiamento imobiliário.

O encarecimento dos custos da construção, identificado pelo levantamento, ocorre não só pela elevação dos combustíveis, mas também ao longo da cadeia produtiva, sobretudo no repasse de preço para insumos intermediários essenciais, cuja produção depende do uso intensivo de energia ou derivados do petróleo.

“O ponto central é que o vetor de pressão sobre os custos da construção está mudando de natureza. Se, até recentemente, a dinâmica era predominantemente explicada pela mão de obra, o atual cenário recoloca os materiais no centro da inflação setorial, ampliando os riscos de aceleração do INCC no curto e médio prazos”, afirmam Ana Maria Castelo, André Braz e Matheus Dias, autores do levantamento.

A aceleração do INCC chama atenção neste momento porque o setor imobiliário está no meio de um ciclo de negócios já contratados, seja para o segmento de infraestrutura ou residencial através do Minha Casa Minha Vida. O programa de Reforma Casa Brasil, lançado no ano passado, é outra ponta do segmento que pode ser bastante atingida.

De acordo com os pesquisadores do FGV/Ibre, quase 90% dos efeitos da guerra na inflação da construção civil serão sentidos em minerais não metálicos (como cimento e derivados, com impacto de 1,34 ponto no INCC), plásticos e PVC (1,11 ponto no INCC) e materiais metálicos (como vergalhões, com impacto de 0,96 ponto).

No segmento de plásticos, o estudo identificou reajuste de até 35% em tubos e conexões, um item crítico para instalações prediais. Houve aumentos de 15% em cimento (tipo Portland comum) e em massa de concreto, enquanto vergalhões e arames de aço subiram 13%.

O reajuste de um ou mais insumos da construção não significa que a inflação do setor vai subir na mesma proporção, uma vez que cada item da cadeia produtiva tem um peso na composição do INCC. Ponderados todos os aumentos, o FGV/Ibre chegou à estimativa de adição de até 3,89 pontos percentuais ao INCC.

Veja os reajustes de insumos da construção civil e o impacto no INCC

Item INCCReaj. máx. (%)Peso INCCImpacto (p.p.)
Minerais não metálicos
Cimento Portland Comum151,900,29
Argamassa100,810,08
Massa de concreto154,270,65
Blocos de concreto64,360,24
Tubos de concreto60,920,06
Telha cerâmica80,230,02
Plásticos e PVC
Tubos e conexões de PVC352,450,86
Eletrodutos de PVC160,810,13
Sistema de tratamento de esgoto150,810,12
Tintas e químicos
Material para pintura101,710,17
Impermeabilizante101,370,14
Materiais metálicos
Vergalhões e arames de aço135,300,67
Esquadrias de alumínio102,740,29
Revestimentos
Placas cerâmicas p/ revestimentos121,360,17
Total13,3929,053,89

Fonte: Levantamento interno com informantes do INCC. Ponderações conforme tabela oficial do INCC. Impacto (p.p.) = Reajuste (%) × Peso / 100.

O levantamento captou uma concentração dos reajustes de insumos da construção entre o final de fevereiro e março de 2026 – a guerra começou no dia 28 de fevereiro -, e os novos preços passaram a valer, em sua maioria, a partir de abril. Na segunda-feira, a FGV informou que o INCC acelerou de 0,36% para 1,04% de março para abril, levando o indicador a acumular uma valorização de 6,28% nos últimos 12 meses.

O estudo identificou que há novos reajustes sendo comunicados ao longo de abril, com impacto previsto para maio. “Esse escalonamento sugere que o processo de repasse está em curso, devendo continuar a pressionar os custos setoriais no curto prazo”, afirmam os pesquisadores.

Qual segmento da construção civil sofre mais

De modo geral, os segmentos – ou etapas da construção civil – mais expostos aos efeitos da guerra são os que utilizam insumos importados ou derivados de petróleo, como plásticos e PVC, além de materiais metálicos.

Em obras de infraestrutura, o uso intensivo de cimento, concreto e aço torna o setor sensível aos choques recentes.

Já no mercado imobiliário residencial, os efeitos tendem a se distribuir de forma mais homogênea, com destaque para os insumos de acabamento, como revestimentos e tintas.

Para o comprador de imóvel, o INCC mais elevado pode encarecer o custo do financiamento. Uma das aplicações do indicador é na correção do saldo devedor com a construtora durante o período de obras.

Para os pesquisadores do FGV Ibre, o choque de preços causado pela guerra no Irã traz paralelos com a quebra de cadeias produtivas ocorrida na pandemia. O encarecimento dos insumos da construção é menor hoje, mas os dados de abril mostram que o componente de materiais e equipamentos, parte do INCC, registrou a maior alta desde abril de 2022.

Jornalista Hugo Passarelli
Hugo Passarelli

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.