Veja o resumo da notícia

  • Aumento do cobre impulsionado por incertezas geopolíticas e restrições na produção, impactando diversos setores da economia global.
  • O cobre, essencial em eletrônicos e construção civil, tem seu preço influenciado por negociações em bolsas de valores internacionais.
  • Economistas do FGV Ibre estimam o impacto do aumento do cobre nos custos da construção civil através do INCC.
  • Desvalorização do real frente ao dólar agrava o cenário, elevando ainda mais os custos de materiais elétricos.
  • Aquecimento da atividade econômica exerce pressão adicional sobre os preços dos condutores elétricos e da construção.
  • A combinação de alta do cobre, dólar e atividade econômica aquecida eleva os custos da construção civil.
Ao menos metade do encarecimento do cobre no exterior chega à construção
Ao menos metade do encarecimento do cobre no exterior chega à construção

No mercado financeiro, o preço dos metais costuma subir quando há muita incerteza política, guerras ou afins. Esse é o caso do ouro, que bateu diversos recordes em 2025. Agora, quem chama a atenção é o cobre, cujo valor aumentou em cerca de 40% nos últimos 12 meses.

O metal é muito usado em itens eletrônicos e é justamente por esse canal que a subida do cobre também pode respingar na construção civil. No limite, significa uma pressão adicional sobre o custo e valor dos imóveis.

Entenda a seguir o que está acontecendo com o cobre e como a construção civil deve sentir esses impactos.

Cobre é uma commodity

Petróleo, ouro, prata, cobre…os quatro são exemplos de commodities minerais, produtos extraídos do subsolo e com uso amplo na indústria e na economia em geral. E como a indústria é mais ou menos igual em todo lugar, esses produtos têm o preço de referência negociado em Bolsa de Valores.

Assim, o preço do cobre usado na construção civil não é exatamente o mesmo do negociado pelo mercado financeiro, mas ambos caminham na mesma direção. Se sobe na Bolsa, tende a subir na economia real também.

E o que está acontecendo com o cobre?

Incerteza no mundo, principalmente geopolítica, costuma puxar para cima o preço dos metais negociados em Bolsa. Com o cobre não é diferente, mas há um fator específico: a produção do metal não está dando conta da procura. Mais demanda, com oferta igual ou menor, é igual a preço maior. Um dos maiores produtores mundiais de cobre é o Chile e por lá a produção tem enfrentado algumas restrições.

Para completar, o presidente dos EUA, Donald Trump, taxou no ano passado a importação de cobre em 50%.

O resultado é esse: nos últimos 12 meses, o principal contrato de cobre, na London Metal Exchange (LME), passou de US$ 9 mil para US$ 13 mil a tonelada, um aumento de mais de 40%.

O que o cobre tem a ver com a construção civil

Os economistas André Braz e Matheus Dias, do FGV Ibre, tentaram estimar como a valorização do cobre chega na construção civil. Eles lembram que o metal é insumo essencial, presente na fabricação de condutores elétricos e de materiais elétricos em geral. Portanto, o impacto tende a ser observado tanto em obras residenciais como em projetos de maior porte.

Um dos indícios para entender como evolui o preço das obras é o Índice Nacional da Construção Civil (INCC), que possui em sua composição um item específico para medir esse encarecimento – os condutores elétricos.

Braz e Dias concluíram que, historicamente, a cada aumento de 10% no preço do cobre, o item condutores elétricos do INCC acumula uma alta de cerca de 5,6% ao longo de vários meses. Ou seja, pouco mais da metade do choque internacional acaba sendo incorporada aos preços domésticos.

“Esse ajuste, no entanto, está longe de ser imediato. Nos primeiros meses após o aumento do cobre, o impacto estimado é de apenas 0,7%, o que corresponde a cerca de 12% do efeito total. A incorporação plena do choque tende a se espalhar no tempo e pode levar mais de um ano para se completar”, dizem os economistas. A análise completa pode ser conferida neste artigo.

Dólar e aquecimento da economia também impactam

Embora o dólar esteja se desvalorizando em relação ao real desde 2025, o câmbio também tem potencial de encarecer itens eletrônicos. Segundo as projeções, cada desvalorização de 10% do real acrescenta cerca de 9,4% ao INCC de condutores elétricos no longo prazo, um repasse praticamente integral.

Isso acontece, explicam os economistas do FGV Ibre, porque o cobre é cotado em dólar em Londres e uma parcela relevante do consumo doméstico é suprida por importações. Além disso, diversos insumos químicos utilizados no isolamento e na proteção dos cabos elétricos também são adquiridos no mercado internacional.

“Por fim, muitos contratos ao longo da cadeia produtiva incorporam cláusulas de reajuste cambial automático, o que acelera e intensifica a transmissão das variações do dólar para os preços medidos pelo INCC”, afirmam Braz e Dias.

Outro ponto extra para elevação de custos é o aquecimento da atividade econômica. Segundo os especialistas, sempre que a indústria acelera, e isso pode ser medido pelo nível de utilização da capacidade instalada (NUCI), também há pressão sobre os preços dos condutores elétricos e da construção civil.

“Para ilustrar, uma elevação do NUCI de 78% para 85% poderia acrescentar algo em torno de 12,6% ao preço dos condutores elétricos ao longo de um período superior a um ano e meio”, dizem os economistas.

A combinação entre alta do cobre, aquecimento da atividade econômica, e, quando for o caso, desvalorização do real, compõem um trio com potencial de aumentar os custos da construção. Tudo isso acontece em um momento em que outro elemento entra na equação: a Reforma Tributária, ainda em transição, pode elevar o custo de construção, sobretudo para as empresas que não se adaptarem ao novo regime de impostos.

“À medida que contratos são renegociados e mecanismos de reajuste entram em vigor, o impacto acumulado [do cobre e do dólar] pode se tornar significativo para a dinâmica dos custos da construção. Em outras palavras, mesmo choques que parecem moderados no início podem se transformar em pressões persistentes sobre o INCC ao longo do ciclo”, resumem os economistas.

Jornalista Hugo Passarelli
Hugo Passarelli

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.

É jornalista com mais de 15 de anos de experiência em grandes veículos, como o Estado de S.Paulo e Valor Econômico. Acredita que morar bem pode estar a um clique de distância. Colabora com o Portas como jornalista autônomo, contribuindo com reportagens e análises sobre o setor imobiliário.