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Veja o resumo da notícia
- A greve da Caixa Econômica Federal pode atrasar financiamentos imobiliários que dependem de análise humana.
- Etapas automatizadas e canais digitais podem continuar funcionando, mas não garantem a conclusão do processo.
- A assinatura presencial de contratos pode ser reagendada, exigindo confirmação e registro de tentativas.
- O prazo do contrato de compra e venda não é prorrogado automaticamente pela greve da instituição financeira.
- Compradores devem documentar todas as providências tomadas e comunicar formalmente as partes envolvidas.
- A utilização do FGTS pode ser solicitada digitalmente, mas a liberação efetiva depende de análise interna da Caixa.

A greve dos empregados da CEF (Caixa Econômica Federal), iniciada no dia 10 deste mês em todo o país, teve seu fim decretado pelo TST (Tribunal Superior do Trabalho) nesta terça-feira (29), quando o tribunal determinou a volta de todos os trabalhadores aos seus postos. Já na última segunda-feira (28), ela já havia ganhado novos desdobramentos, com uma determinação anterior do TST de que 60% dos funcionários deveriam voltar aos seus postos em cada agência da Caixa, de forma presencial ou remota, mesmo durante a paralisação.
A manutenção de um contingente mínimo de trabalhadores permitiu a retomada parcial do atendimento, mas ainda não é possível saber como a medida afetou e afetará o ritmo de processamento das operações de crédito imobiliário. Somente agora, com a volta de todos os trabalhadores, será possível mensurar como a greve atrasou etapas de financiamentos imobiliários que dependem da atuação de funcionários do banco, como análise de documentos, aprovação de crédito, assinatura de contratos e liberação de recursos ao vendedor.
A paralisação havia entrado também no radar dos investidores. Em um documento enviado a investidores, o BTG Pactual incita que investidores questionem CEOs e executivos do setor a respeito de como a paralisação recente deve impactar os resultados do terceiro trimestre de 2026 (3T26). (leia ao final)
Qual foi o impacto da greve até agora?
Oficialmente não existe um levantamento de quantos processos de concessão de crédito foram paralisados, embora o movimento já pressione repasses e fluxo de caixa das incorporadoras.
Para quem compra imóvel, o impacto varia de acordo com a fase em que cada operação está. A paralisação também não suspende automaticamente os prazos previstos nos contratos de compra e venda.
A análise é de três advogados especializados em direito imobiliário e contratos ouvidos pelo Portas para entender melhor os possíveis desdobramentos da paralisação dos servidores para quem está num processo de análise de crédito junto à instituição financeira.
O banco é o principal agente financiador de crédito habitacional no país. Dados de julho da Abecip (Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança) indica que a Caixa foi responsável por R$ 55,90 bilhões em financiamentos, o equivalente a 208.152 mil moradias. O número equivale a 48,39% dos R$ 115,52 bilhões financiados no mês retrasado. Se o cálculo for feito por unidades financiadas, essa fatia cresce para 61,61% do total.
Segundo os especialistas ouvidos para essa reportagem, para quem está perto de concluir a aquisição de um imóvel, a paralisação cria um problema prático, já que o financiamento pode depender de uma etapa da Caixa que não avance no ritmo previsto, enquanto o prazo para pagar o vendedor continua correndo.
Nesse caso, os advogados recomendam que o comprador registre todas as providências tomadas e comunique formalmente às demais partes do negócio.
O que pode parar no financiamento
Nem todas as etapas do financiamento dependem diretamente de funcionários da Caixa. Segundo Daniela Poli Vlavianos, sócia do escritório Poli, Porto & Andreghetto Advogados, nas etapas automatizadas, o acompanhamento da proposta e determinadas operações podem ser acompanhadas pelos canais digitais, que podem continuar funcionando durante a greve.
Já os procedimentos que exigem análise interna do banco podem sofrer atrasos. Entre eles estão a conferência de documentos, a avaliação jurídica, a análise de engenharia, a validação do FGTS, a aprovação interna e a assinatura presencial do contrato.
“Procedimentos que dependam da atuação de empregados da Caixa, como conferência de documentos, avaliação jurídica, análise de engenharia, validação do FGTS, aprovação interna e assinatura presencial do contrato, podem sofrer atrasos”
Daniela Poli Vlavianos, sócia do escritório Poli, Porto & Andreghetto Advogados
Para Taunai Moreira, sócio do escritório Bruno Boris Advogados, o risco de paralisação é concreto justamente nas fases que ainda dependem da atuação humana. “Sim, há risco concreto de paralisação, ainda que parcial”, diz.
Segundo Daniel Vicentini, especialista em Direito Imobiliário e sócio do escritório que leva seu nome, outro efeito é que mesmo os processos que continuarem funcionando podem enfrentar uma fila maior de solicitações.
A fase do financiamento também faz diferença. Para Daniela, quem já assinou o contrato está em situação mais protegida do que quem recebeu apenas uma simulação ou uma aprovação preliminar de crédito. “A aprovação de crédito, isoladamente, não equivale à celebração definitiva do financiamento”, diz a advogada.
Aplicativo e correspondente não substituem todas as etapas
Os canais digitais podem continuar recebendo solicitações e permitindo o acompanhamento dos processos, mas isso não significa que o financiamento será concluído normalmente.
Segundo Taunai, a Caixa orienta os clientes a utilizar o App Habitação Caixa, App Caixa, Internet Banking, WhatsApp, Caixa Tem e outros aplicativos da instituição, além do Alô Caixa. Ele também cita o atendimento em unidades lotéricas e nos Correspondentes Caixa Aqui, que podem encaminhar propostas de financiamento.
“O financiamento ainda envolve muitas etapas que dependem da atuação humana, e o deve persistir após o encerramento da paralisação, diante do acúmulo de processos”
Taunai Moreira, sócio do escritório Bruno Boris Advogados
Segundo Daniela, quem está entregando documentos por canais digitais deve ficar atento, já que o protocolo de uma solicitação não significa que o crédito esteja definitivamente aprovado. Segundo ela, a Caixa ainda precisa validar a capacidade de pagamento, o imóvel, a documentação das partes e a regularidade jurídica da operação.
Por isso, a orientação é protocolar os documentos disponíveis, guardar os comprovantes de envio e registrar as tentativas de atendimento. A documentação ajuda a demonstrar quais providências foram tomadas pelo comprador e quais etapas ficaram pendentes por dependerem da instituição financeira.
Assinatura presencial pode ser reagendada
Quem já tem uma assinatura de contrato marcada em uma agência não deve considerar o agendamento garantido durante a greve. A realização do ato depende do funcionamento da unidade e da existência de equipe suficiente, além de o contrato estar integralmente aprovado e disponível.
Segundo Daniela, se o atendimento presencial for suspenso ou reduzido, a assinatura poderá ser cancelada e remarcada. O comprador, porém, não deve presumir que o agendamento foi cancelado. A orientação é confirmar a situação pelos canais disponíveis.
Se a assinatura não acontecer, Daniela recomenda pedir um protocolo ou documento que registre que o comprador estava disponível para assinar e que o ato não foi realizado por motivo relacionado à greve. O registro pode ajudar a demonstrar que o atraso não ocorreu por responsabilidade do comprador.
Para Taunai, a assinatura presencial depende diretamente da presença de funcionários nas agências. “Procedimentos, devem ser reagendados ou adiados. A Caixa tem orientado o uso dos canais digitais e dos Correspondentes Caixa Aqui como medidas paliativas. A realidade prática é que a assinatura presencial de contrato depende da presença de funcionários nas agências”, explica.
O prazo do contrato continua valendo
O fato de a Caixa estar em greve não significa que o prazo estabelecido no contrato de compra e venda seja automaticamente prorrogado. Segundo Daniela, se o compromisso estabelecer uma data para pagamento, assinatura do financiamento ou liberação dos recursos, o vencimento permanece válido até que as partes formalizem uma prorrogação ou obtenham uma decisão judicial.
Isso pode deixar o comprador diante de duas situações ao mesmo tempo. A primeira é a dele ter cumprido as providências necessárias para obter o financiamento, mas ainda depender de uma etapa da Caixa para concluir a operação. A outra é que o vendedor pode tentar cobrar a multa prevista no contrato, mas a cobrança pode ser contestada dependendo das circunstâncias.
O comprador então precisa demonstrar que tomou as providências que estavam sob sua responsabilidade e que o atraso ocorreu exclusivamente por causa da paralisação da Caixa.
“É preciso verificar quem deu causa ao atraso e se o comprador cumpriu todas as obrigações que estavam sob sua responsabilidade”
Daniel Vicentini, especialista em Direito Imobiliário e contratos
Para os especialistas, há fundamento para questionar eventuais penalidades desde que o comprador tenha entregue a documentação, solicitado o financiamento dentro do prazo e tomado as providências necessárias, e comprove que a contratação não foi concluída por um atraso exclusivamente relacionado à própria instituição financeira.
A perda da proposta ou do negócio também não ocorre automaticamente, segundo Vicentini. É necessário analisar as condições previstas no contrato e as circunstâncias do atraso.
Segundo Taunai, esse risco existe, mas é juridicamente questionável. “Não há regra que suspenda automaticamente os prazos contratuais por causa de uma greve. É preciso verificar o contrato e identificar quem foi responsável pelo atraso”, diz o advogado.
Daniela também aponta que, em determinadas situações, pode ser discutida a responsabilidade da Caixa por eventuais prejuízos. Segundo ela, se houver falha na prestação do serviço bancário e prejuízo efetivamente comprovado, a questão pode ser analisada com base nos artigos 6º e 14 do CDC (Código de Defesa do Consumidor), que tratam de direitos do consumidor e da responsabilidade pela prestação de serviços.
“A greve integra o risco da organização do serviço bancário e não afasta, por si só, toda responsabilidade da instituição perante o consumidor”
Daniela Poli Vlavianos, sócia do escritório Poli, Porto & Andreghetto Advogados
A advogada acrescenta ainda que também pode ser discutida a manutenção das condições de crédito anteriormente aprovadas quando o prazo expirar exclusivamente por atraso atribuível ao banco. Segundo ela, essa possibilidade ganha força quando existe proposta formal, prazo de validade definido e documentação que demonstre que não havia pendências do comprador.
FGTS pode ser solicitado, mas a liberação pode atrasar
O comprador que pretende utilizar o saldo do FGTS na aquisição, amortização ou liquidação do financiamento pode continuar realizando algumas operações pelos canais digitais. O aplicativo FGTS permite consultar o saldo, emitir extratos e fazer as operações disponíveis. Mas o saldo existente na conta não significa que o dinheiro será liberado automaticamente para a operação imobiliária.
A utilização do FGTS exige análise e validação da Caixa, e essas etapas podem ser afetadas pela greve. “A liberação efetiva do FGTS — para abatimento, amortização ou liquidação do saldo devedor — depende de processamento interno pela Caixa, o que pode estar sujeito aos efeitos da greve”, afirma Taunai.
Daniela explica que, antes da liberação, a instituição precisa verificar requisitos relacionados à utilização do fundo. Entre eles estão o tempo de trabalho sob o regime do FGTS, a titularidade de outro imóvel, a localização do bem, a destinação residencial e o enquadramento da operação.
Por isso, quem pretende usar o FGTS deve formalizar o pedido antes do vencimento do prazo contratual e guardar os protocolos e documentos que comprovem a solicitação.
O mesmo cuidado vale para quem está dependendo de outras etapas do financiamento: quanto mais completa for a documentação que demonstra as providências tomadas pelo comprador, mais claro fica o histórico do processo caso o prazo do contrato de compra e venda termine antes da conclusão da operação.
O que fazer se o prazo estiver perto do vencimento
Para quem está com o prazo de pagamento ao vendedor próximo do vencimento, a primeira providência é comunicar a situação por escrito. O comprador deve informar ao vendedor ou à incorporadora que o financiamento está em andamento, indicar em que etapa ele se encontra e registrar as providências já tomadas junto à Caixa.
A recomendação de Daniela é pedir formalmente a prorrogação do prazo, de preferência por meio de um aditivo contratual, documento que altera as condições previstas no contrato original.
O pedido deve deixar registrado que a extensão ocorre em razão do atraso na conclusão do financiamento e, segundo a advogada, deve ser feita sem multa, perda do sinal ou alteração do preço. Também é importante continuar tentando avançar o financiamento pelos canais disponíveis.
O comprador deve procurar o App Habitação Caixa, o Correspondente Caixa Aqui, a central de atendimento, o SAC e a ouvidoria da instituição. Mais do que tentar obter uma resposta, o comprador deve guardar os registros dessas tentativas, dizem os advogados.
Protocolos, mensagens, e-mails, comprovantes de entrega de documentos, aprovações de crédito e agendamentos cancelados ajudam a reconstruir o histórico da operação. Se houver risco de rescisão do contrato, perda do imóvel, retenção do sinal ou cobrança de multa elevada, Daniela recomenda o envio de uma notificação extrajudicial ao vendedor e à Caixa.
Se o problema persistir, o comprador poderá buscar na Justiça uma tutela de urgência, medida usada para pedir uma decisão rápida antes do julgamento definitivo do caso. Para Vicentini, o mais importante é não deixar o prazo simplesmente vencer sem tomar providências.
“O comprador não deve simplesmente deixar o prazo vencer”, diz.
Segundo o advogado, reunir os comprovantes das providências tomadas pode ser importante caso o vendedor cobre posteriormente multa, juros ou outros encargos. “Essa documentação pode ser fundamental para discutir posteriormente a cobrança de multa, juros ou outros encargos”, diz.
O objetivo, portanto, não é apenas esperar a retomada do atendimento da Caixa. É deixar registrado, antes do vencimento, que o comprador tomou as medidas que estavam ao seu alcance e que a conclusão do negócio dependia de uma etapa sob responsabilidade da instituição financeira.
Situação já preocupa o mercado
A análise do BTG faz parte de um relatório enviado a investidores antes do LatAm CEO Conference, evento que reúne os principais executivos do mercado em Nova York entre esta terça-feira (29) e o dia 1º de outubro, próxima quinta-feira. Segundo os analistas, as perguntas elaboradas por eles serão importantes para avaliar os principais riscos e oportunidades do setor.
O bloco dedicado às incorporadoras de baixa renda é apenas uma parte do questionário preparado pelo BTG Pactual para a conferência. O documento também reúne perguntas sobre empresas de média renda, shoppings e outros segmentos do mercado imobiliário, além de temas como crédito, custos de construção, margens, crescimento e estrutura de capital.
Os questionamentos dos analistas do BTG estão reunidos no “Book of Questions for Senior Management”. Entre várias perguntas, o banco pergunta aos executivos como eles acreditam que a paralisação deve impactar os resultados trimestrais relativos ao terceiro trimestre de 2026. A questão aparece no bloco dedicado às empresas de baixa renda.
O documento não apresenta uma estimativa de impacto nem uma análise sobre os efeitos da greve. A pergunta, porém, coloca o tema entre os pontos a serem discutidos com as incorporadoras durante o evento. A preocupação é especialmente relevante para empresas com forte exposição ao MCMV, programa no qual a Caixa tem papel central na concessão de financiamentos.
O que as incorporadoras precisam responder
A greve, porém, é apenas uma parte do que o BTG quer saber sobre a Caixa. Na mesma pergunta, o banco aborda a postura recente da instituição no crédito imobiliário e questiona as incorporadoras sobre uma possível maior restrição nas concessões.
Entre os pontos levantados estão a evolução dessa postura, eventuais diferenças por região ou faixa de renda e as discussões entre a Caixa e representantes do setor sobre o crédito imobiliário.
Só depois desses questionamentos aparece a greve: “Quanto à greve recente, como acreditam que ela deve impactar os resultados do 3T26?”, diz o documento.
A pergunta seguinte também olha para frente e questiona se a Caixa poderia adotar uma postura ainda mais restritiva depois das eleições.
O documento, portanto, não apresenta uma estimativa do BTG para o impacto da paralisação. O objetivo é saber das próprias incorporadoras como a greve pode afetar os resultados do terceiro trimestre, dentro de um quadro mais amplo de mudanças na oferta de crédito imobiliário.
As 10 Perguntas do BTG Pactual para os CEOs de Baixa Renda
Roteiro de questionamentos sugerido aos investidores durante as reuniões com as incorporadoras:









