Veja o resumo da notícia

  • A caderneta de poupança do SBPE registrou captação líquida negativa de R$ 9,51 bilhões em agosto.
  • O resultado de agosto representa uma piora em relação a julho e é o segundo pior desempenho mensal do ano.
  • A saída de recursos da poupança aumenta a pressão sobre o funding do crédito habitacional.
  • Apesar da captação negativa, o crédito imobiliário com recursos da poupança alcançou R$ 115,5 bilhões de janeiro a julho.
  • Em agosto, os depósitos na poupança SBPE somaram R$ 309,62 bilhões, enquanto as retiradas foram de R$ 319,13 bilhões.
  • O saldo do SBPE terminou agosto em R$ 757,19 bilhões, uma queda de 0,6% em relação a julho.
  • A captação líquida acumulada de janeiro a agosto ficou negativa em R$ 47,03 bilhões, valor menor que em 2025.
  • A persistência do movimento de saídas líquidas da poupança pode tornar outras fontes de recursos mais importantes.
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Em agosto, os depósitos na poupança SBPE somaram R$ 309,62 bilhões, enquanto as retiradas alcançaram R$ 319,13 bilhões Imagem: Witoon Pongsit/iStock

A caderneta de poupança do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) teve captação líquida negativa (ou seja, perda) de R$ 9,51 bilhões em agosto, segundo dados do BC (Banco Central) divulgados nesta quinta-feira (10).

O SBPE é uma das principais fontes para financiamento imobiliário no país.

O resultado representa uma piora em relação a julho, quando os saques haviam superado os depósitos em R$ 6,95 bilhões, e foi o segundo pior desempenho mensal do SBPE em 2026, ficando atrás apenas de janeiro, quando o saída líquida ficou em R$ 18,81 bilhões.

Poupança SBPE em 2026
Captação líquida mensal, jan-ago
Três meses seguidos de retirada líquida: -R$17,86 bi acumulados entre junho e agosto
Mês Captação líquida Saldo geral
Janeiro-R$18,81 biR$752,49 bi
Fevereiro-R$4,07 biR$753,03 bi
Março-R$9,09 biR$748,61 bi
Abril+R$499 miR$753,83 bi
Maio+R$2,30 biR$760,74 bi
Junho-R$1,40 biR$764,08 bi
Julho-R$6,95 biR$761,95 bi
Agosto-R$9,51 biR$757,19 bi
Saldo em agosto
R$757,19 bi
Captação líquida acumulada no ano é negativa em R$47,03 bi, mas o saldo ainda cresceu R$4,70 bi graças aos rendimentos
Fonte: Banco Central

O SBPE é uma das principais fontes de recursos utilizadas pelos bancos para financiar o crédito habitacional. Em termos práticos, a saída líquida de recursos aumenta a pressão sobre uma das principais fontes de funding do crédito habitacional, justamente em um momento de expansão das concessões.

O resultado ocorre em um momento em que a demanda por recursos apresenta expansão. De janeiro a julho, o crédito imobiliário com recursos da poupança alcançou R$ 115,5 bilhões, um avanço de 36,3% em relação aos R$ 84,8 bilhões registrados no mesmo período do ano passado, segundo dados da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

A captação negativa da poupança, portanto, não interrompeu a concessão de crédito, mas mantém a pressão sobre uma das fontes tradicionais de recursos para o financiamento habitacional. 

A piora de agosto também chama atenção porque ocorre depois de dois meses consecutivos de saídas. Em junho, a captação líquida do SBPE havia ficado negativa em R$ 1,40 bilhão. Em julho, o déficit aumentou para R$ 6,95 bilhões e chegou a R$ 9,51 bilhões em agosto. 

Depósitos caem mais que retiradas 

Em agosto, os depósitos na poupança SBPE somaram R$ 309,62 bilhões, enquanto as retiradas alcançaram R$ 319,13 bilhões. A diferença resultou na saída líquida de R$ 9,51 bilhões.

Na comparação com julho, os dois fluxos diminuíram, mas os depósitos recuaram mais. As entradas passaram de R$ 320,17 bilhões para R$ 309,62 bilhões, queda de 3,3%. As retiradas, por sua vez, caíram de R$ 327,13 bilhões para R$ 319,14 bilhões, redução de 2,4%. 

Em termos absolutos, isso significa que os depósitos diminuíram cerca de R$ 10,55 bilhões entre julho e agosto, enquanto as retiradas recuaram aproximadamente R$ 7,99 bilhões. A diferença entre os dois movimentos explica a piora de R$ 2,56 bilhões na captação líquida (a diferença de  R$ 6,95 bilhões para R$ 9,51 bilhões).

O rendimento creditado aos poupadores foi de R$ 4,76 bilhões em agosto, abaixo dos R$ 4,82 bilhões de julho.

O padrão recente mostra uma oscilação da captação, mas com deterioração nos últimos meses. Depois de registrar entradas líquidas de R$ 499 milhões em abril e de R$ 2,30 bilhões em maio, o SBPE voltou ao terreno negativo em junho. 

Desde então, o déficit aumentou mês a mês: R$ 1,40 bilhão em junho; R$ 6,95 bilhões em julho; e R$ 9,51 bilhões em agosto. 

Efeitos da captação negativa

A captação negativa do SBPE aumenta a pressão sobre o funding do crédito habitacional, mas os dados disponíveis até agora não indicam uma retração das concessões. Somente em julho, o crédito imobiliário com recursos da poupança somou R$ 20,96 bilhões, o melhor resultado para o mês da série histórica, segundo a Abecip. Trata-se de um crescimento de 21% ante junho e de 76,7% na comparação com julho de 2025.

Com isso, a Abecip passou a projetar crescimento de 25% nas concessões totais, para cerca de R$ 411 bilhões, e alta de 18% especificamente no SBPE, com aproximadamente R$ 185 bilhões em financiamentos no ano. 

A questão, portanto, passa a ser como o sistema vai sustentar a expansão do crédito caso as saídas líquidas da poupança persistam. O próprio desempenho da carteira mostra que a falta de captação da caderneta não se traduz imediatamente em redução dos financiamentos, mas torna mais importante a participação de outras fontes de recursos, principalmente em um cenário de juros altos.

Depósitos e retiradas na poupança SBPE em 2026
Movimentação mensal, jan-ago
Retiradas superam depósitos em 6 dos 8 meses do ano, com déficit acumulado de R$47,05 bi
Mês Depósitos Retiradas
JaneiroR$286,71 biR$305,52 bi
FevereiroR$284,66 biR$288,73 bi
MarçoR$320,36 biR$329,44 bi
AbrilR$313,99 biR$313,49 bi
MaioR$319,29 biR$317,00 bi
JunhoR$326,66 biR$328,06 bi
JulhoR$320,17 biR$327,13 bi
AgostoR$309,62 biR$319,14 bi
Total depositado
R$2,481 trilhões
Total retirado
R$2,529 trilhões
Fonte: Banco Central

Saldo recua, mas permanece acima de R$ 750 bilhões 

O saldo do SBPE terminou agosto em R$ 757,19 bilhões, abaixo dos R$ 761,95 bilhões registrados no fim de julho. A queda mensal foi de 0,6%, ou cerca de R$ 4,76 bilhões.

Mesmo com as retiradas acumuladas ao longo do ano, o estoque permanece acima do registrado no início de 2026. O saldo encerrou janeiro em R$ 752,49 bilhões e chegou ao pico do ano em junho, com R$ 764,08 bilhões. Desde então, recuou R$ 6,89 bilhões. 

O movimento mostra uma diferença entre fluxo e estoque: a captação líquida está negativa, mas o saldo total ainda se mantém elevado com a ajuda do estoque acumulado e da remuneração dos depósitos. 

Saída acumulada diminui em relação a 2025 

De janeiro a agosto, os depósitos do SBPE somaram R$ 2,481 trilhões, contra R$ 2,529 trilhões em retiradas. Com isso, a captação líquida acumulada ficou negativa em R$ 47,03 bilhões. 

No mesmo período de 2025, a saída líquida havia sido de aproximadamente R$ 48,34 bilhões. Apesar da piora registrada nos últimos três meses, portanto, o déficit acumulado de 2026 ainda é 2,7% menor que o observado nos oito primeiros meses do ano passado.

A comparação ajuda a colocar o resultado de agosto em perspectiva. O mês foi o segundo pior de 2026, mas o acumulado até agora ainda apresenta uma pequena melhora em relação ao mesmo período de 2025. Para o mercado imobiliário, o ponto de atenção está na sequência recente: depois de abril e maio positivos, o SBPE voltou a registrar saídas líquidas por três meses consecutivos, com aceleração do déficit em julho e agosto. 

Para o mercado imobiliário, o ponto de atenção está na sequência recente. Isso porque, depois de abril e maio positivos, o SBPE voltou a registrar saídas líquidas por três meses consecutivos, com aceleração do déficit em julho e agosto. 

Se esse movimento persistir, a capacidade de outras fontes de funding de compensar a menor entrada de recursos na poupança ganha ainda mais importância.

Clayton Freitas

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.