Veja o resumo da notícia
- A construtora Patriani repassou oito obras para a Tarjab e reduziu drasticamente seu quadro de funcionários.
- A reestruturação ocorre após um prejuízo de R$ 323,9 milhões registrado em 2025 e queixas de atrasos e falta de pagamento.
- A Tarjab assumiu a responsabilidade pela construção e incorporação em metade dos empreendimentos, e apenas pela construção nos demais.
- Carlos Borges, conselheiro da Tarjab, afirma que um entendimento financeiro garante a entrega de todos os empreendimentos até o fim de 2027.
- A Patriani, fundada em 2012 por Valter Patriani, operava no segmento de renda média e alta, com imóveis de até R$ 2,5 milhões.
- Queixas sobre a empresa se acumulam no Reclame Aqui e sindicatos, enquanto a construtora nega rumores de recuperação judicial.
- Compradores de imóveis da Patriani devem buscar um termo aditivo ao contrato original para documentar a sucessão da obra.
- A advogada Nanci Regina Souza Lima destaca que o comprador pode rescindir o contrato sem penalidades antes de assinar o aditivo.

A construtora Patriani repassou oito obras para a Tarjab e reduziu seu quadro de funcionários de 1.500 para cerca de 50. Por trás da reestruturação, está um prejuízo de R$ 323,9 milhões registrado em 2025 e queixas de fornecedores, trabalhadores e de consumidores que se acumulam desde o ano passado. “Caro cliente, no momento, estamos com um volume elevado de solicitações.” É assim que a construtora responde a qualquer pedido de atendimento.
Em metade dos oito empreendimentos, a Tarjab é responsável pela construção e incorporação; nos demais, cuida apenas da construção. O rearranjo expõe o enxugamento da operação da Patriani e a dificuldade para finalizar e vender um portfólio de ao menos 20 prédios. Na prática, a companhia fundada por Valter Patriani opera hoje apenas como uma incorporadora, ou seja, capta terrenos, planeja, modela e comercializa.
“Foi construído um entendimento financeiro entre a Patriani e os fundos que a apoiam que garante a entrega de todos os empreendimentos até o fim de 2027”, afirma Carlos Borges, conselheiro da Tarjab.
Ele diz não saber especificar se esses “fundos” são credores da Patriani ou investidores da companhia nem a situação exata da Patriani. Havia, em suas palavras, sinais de dificuldades operacionais e financeiras. O executivo afirma ter uma relação “cordial” com a Patriani, incluindo seu fundador, com quem conversa quando necessário.
Segundo Borges, a parceria é uma prestação de serviços firmada no início de 2026 para finalizar as obras e segue um modelo de trabalho similar ao já realizado pela Tarjab em outras ocasiões. A companhia finalizou quase 20 empreendimentos da Encol, construtora fundada em Goiânia em 1961 e que decretou falência em 1999. “As obras estão em pleno vapor, vamos realizar a entrega no menor prazo e custo possíveis”, afirma o conselheiro da Tarjab.
No início de junho, Bruno Patriani, filho do fundador da Patriani, compartilhou em suas redes sociais vídeos sobre as obras de empreendimentos em construção, incluindo Reserva Prado (Campinas); Mistral Vitra (São Bernardo do Campo); Passione (São Caetano do Sul); e Soberano Santa Paula (São Caetano do Sul). As imagens mostram estados variados de andamento. É possível observar a presença de funcionários.

O Portas tentou contato com a Patriani por meio de diversos telefones comerciais e direcionados à imprensa, além de email, mas não obteve respostas. Uma profissional informou que toda a equipe de comunicação da construtora foi demitida nos últimos meses de 2025. E, de modo geral, o corpo de funcionários foi reduzido de 1,5 mil para algo em torno de 50, segundo o jornal Valor Econômico, sem contar com o braço da construtora.
O que a Patriani diz
Valter Patriani foi entrevistado pelo jornal DGABC, em reportagem que foi publicada no fim de junho.
“80% da nossa reestruturação já foi feita. Agora me sinto mais confiante; 2027 será um ano muito especial para a Patriani”, afirmou o gestor. “Os prédios serão entregues no prazo.”
Ele culpou a taxa de juros pelas dificuldades na empresa. “Esses valores não estavam previstos em 2022, 2023.”
O que aconteceu com a Patriani?
Queixas sobre falta de pagamento a trabalhadores e fornecedores se espalham desde o ano passado e engrossam as reclamações de consumidores sobre atrasos na entrega de obras. No site da Patriani, há 13 empreendimentos listados como “em construção”, e a maioria deles deixou de receber atualização sobre o status da obra, antes realizada periodicamente, desde o fim de 2025.
A Patriani foi fundada em 2012 por Valter Patriani, hoje de volta ao comando da companhia. Valter trabalhou 33 anos na CVC. Foi o primeiro funcionário da empresa de turismo e galgou posições até assumir como CEO, cargo que ocupou até sair para criar a construtora que leva seu sobrenome.
De março de 2024 a dezembro de 2025, a Patriani teve como CEO Mauricio Soler, profissional com mais de 20 anos de experiência no setor imobiliário. A justificativa, registrada em reportagem da Folha de S. Paulo, era a de preparar o filho do fundador, Bruno Patriani, para assumir a sucessão.
Em seu perfil profissional no Linkedin, Soler anota a atuação como CEO da Patriani até dezembro de 2025. Não há informação precisa se Bruno Patriani assumiu o bastão naquele momento ou se a volta do fundador à posição de CEO ocorreu logo após a saída de Soler.
Qual é o perfil dos empreendimentos da Patriani?
Com crescimento acelerado, a construtora Patriani celebrava com frequência, em redes sociais e na imprensa especializada, as conquistas financeiras, como o primeiro bilhão de reais atingido em volume geral de vendas (VGV), uma métrica bastante olhada pelo setor imobiliário.
Em materiais promocionais, a Patriani destaca o uso de tecnologias modernas e inclusão de itens de sustentabilidade, como garagens já equipadas para carregamento de carros elétricos e terraços com placas solares.
Atuando em cidades da grande São Paulo, interior e litoral paulistas, a empresa é focada no segmento de renda média e alta, com metragens sempre em torno de 70 a 200 metros quadrados, com exceção da capital paulista, onde a própria dinâmica do mercado impõe unidades menores.
Em São Paulo, há unidades a partir de R$ 500 mil, mas o valor pode chegar a pelo menos R$ 2,5 milhões em empreendimentos de luxo, como o Epic Jundiaí, segundo informações captadas em sites de classificados.
É justamente esse segmento o que mais tem encontrado dificuldade para manter vendas e fazer rodar lançamentos, em um momento em que os juros altos tornam o Minha Casa Minha Vida, hoje ampliado para imóveis de até R$ 600 mil, uma opção mais segura de retorno financeiro para as construtoras e dentro da capacidade de pagamento da maioria dos brasileiros.
Não está claro, no entanto, se o cenário de juros altos foi o único a contribuir para a Patriani escorregar na execução operacional. Por se tratar de uma companhia de capital fechado, sem ações listadas na Bolsa de Valores, a Patriani não tem obrigação de publicar balanços financeiros, nem que os mesmos sejam auditados por terceiros e disponibilizados para amplo acesso.
Queixas e receio de falência: qual o momento atual da Patriani?
Na plataforma Reclame Aqui, uma empresa sediada em Limeira relatou em maio de 2026 aguardar pagamento desde outubro de 2025 por serviços realizados para as obras do Mirai em Suzano, na Grande São Paulo, e do Mira Vila Ema, em São José dos Campos, interior paulista. A queixa alega que “o dono da empresa não presta qualquer esclarecimento sobre o pagamento dos fornecedores.”
Também em outubro de 2025, o Sintracom, sindicato que representa os trabalhadores da construção civil, fez um protesto em frente a uma obra de São Bernardo do Campo, alegando que o andamento da construção estava paralisado por falta de pagamento aos funcionários. Na cidade, a construtora tem o empreendimento Mistral. Procurado, o sindicato não retornou os pedidos de contato para informar se a situação já foi regularizada.
Apenas um mês antes de o sindicato promover a manifestação, Bruno Patriani, filho do fundador da construtora, comemorou em suas redes sociais a posição obtida pela empresa no anuário Valor 1000, levantamento realizado pelo jornal Valor Econômico. O estudo verifica informações financeiras para rankear as 1000 maiores empresas do Brasil e observou na edição divulgada em setembro de 2025, com dados sobre o ano anterior, melhora nos resultados da Patriani. De 2023 a 2024, a construtora avançou 156 posições e passou a ocupar o posto número 741.
De acordo com os dados disponíveis neste levantamento, a Patriani registrou lucro líquido de R$ 4,9 milhões em 2024, um recuo de 50% em relação ao desempenho de 2023, quando a última linha do balanço financeiro estava positiva em R$ 9,9 milhões. A cifra se reverteu para prejuízo de R$ 323,9 milhões em 2025, com recuo de 61% na receita, para R$ 508,1 milhões, segundo o Valor.
Para o mesmo jornal, o CEO Valter Patriani negou rumores sobre pedidos de recuperação judicial da Patriani, mas disse que a crise é a pior da história da companhia. Afirmou também que será possível cumprir o prazo de entrega em 75% dos empreendimentos, já considerando a margem de tolerância de 180 dias.
Comprei um imóvel da Patriani, o que faço?
A mudança de mãos de uma obra coloca o comprador em uma zona de transição e o ponto de atenção é a forma como essa sucessão é documentada.
Embora a incorporadora original permaneça, tecnicamente, como a responsável perante o registro de imóveis, a entrada de uma nova construtora exige transparência total”, afirma Nanci Regina Souza Lima, sócia especialista em direito imobiliário no NR Souza Lima Sociedade de Advogados.
De acordo com a especialista, o mais comum é que se realize um termo aditivo ao contrato original. “Este documento é vital, pois nele devem constar as novas condições de execução, prazos e, principalmente, a anuência do comprador sobre quem passará a gerir o canteiro de obras”, afirma Nanci.
A advogada afirma que essa etapa é o “momento de ouro” da negociação, uma vez que o comprador terá a oportunidade de rescindir o contrato por meio de distrato e sem penalidades, se for de seu interesse. Uma vez assinado o aditivo, porém, fica registrado o aceite sobre a sucessora.
A especialista ressalta que é preciso analisar o modelo jurídico em que foi realizada a troca de construtora, mas destaca que, em tese, a nova empresa não pode se isentar de aceitar uma devolução ou de pagar multas por atrasos que ocorreram sob a gestão da companhia anterior.
Isso vale também, por exemplo, para eventuais vícios de construção que sejam identificados pelo comprador no futuro. “Para o consumidor, tanto a incorporadora que vendeu o sonho quanto a construtora que efetivamente levantou as paredes respondem por defeitos”, afirma Nanci.
Quantos empreendimentos a Patriani possui e onde eles estão?
O site da Patriani lista 13 empreendimentos em construção e seis em lançamento. Para o último grupo, o mais provável é que o lançamento entre em banho-maria e seja acelerado só em 2027. Veja mais detalhes sobre os lançamentos:
- Dois em Jundiaí (Mistral Jundiaí e Epic Jundiaí, ambos no Jardim Botânico, com unidades de 131 e 163 metros no primeiro caso, e de 207 no segundo);
- Dois em Santo André (Magno Jardim e Magno Assunção, ambos com 72 metros);
- Um em Sorocaba (Vitra Patriani, com 184 metros);
- E um em Indaiatuba (Epic Indaiatuba, 166 metros).
A Tarjab diz ter assumido a construção de oito unidades, sendo uma (a Epic Cambuí, em Campinas) já entregue e as demais em andamento. São elas:
- Reserva Prado, Campinas; última atualização no site em novembro de 2025, indicando 2% de instalação elétrica e hidráulica;
- Platina Norte Sul, Campinas; última atualização no site em novembro de 2025, indicando 2% de rebocos internos e 21% de elétrica e hidráulica;
- Passione Patriani, São Caetano do Sul; última atualização no site em setembro de 2025; indicando 18% de avanço nas partes elétrica/hidráulica;
- Soberano Santa Paula Patriani, São Caetano do Sul; última atualização no site em setembro de 2025, indicando 32% de acabamentos internos e 41% de elétrica e hidráulica;
- Mistral Patriani, São Bernardo do Campo; última atualização no site em fevereiro de 2026, dando conta de 65% da instalação hidráulica; 68% da elétrica e 98% da alvenaria;
- Splendor, Santo André; última atualização no site em setembro de 2025, indicando 27% de elétrica e hidráulica;
- Orion, Campinas – informado pela Tarjab, único que não consta no site da Patriani
Há ainda oito prédios que constam como em construção no site da Patriani, e não se sabe se há acordos para levá-los adiante. A Tarjab diz que a parceria, por ora, envolve apenas as unidades acima e não há previsão de expansão. Confira:
- Mistral Embaré, Santos; última atualização em novembro de 2025, indicando 3% de movimento de terra e 66% de contenção de divisas;
- Vista Campestre, Santo André; última atualização em novembro de 2025, indicando 74% de fundações profundas;
- Vitra Paraíso, São Paulo; última atualização em dezembro de 2025, indicando 0% nas instalações elétricas e hidráulica;
- Vitra Nova Klabin, São Paulo; última atualização em novembro de 2025, indicando estar na fase de impermeabilização (20%), com 23% da elétrica/hidráulica e 48% da alvenaria;
- Magno Cambuí, Campinas; última atualização em novembro de 2025, indicando 29% da estrutura de concreto;
- Vitra Patriani, São Bernardo do Campo; última atualização em fevereiro de 2026, indicando estar na fase de instalação hidráulica, com 98% da alvenaria completa e 72% das instalações elétricas;
- Bossa Nova Patriani, São Caetano do Sul; última atualização no site em novembro de 2025, indicando 2% de instalação elétrica e fundação em 90%;
- Vitra Gonzaga, Santos; última atualização em novembro de 2025, indicando estar na fase de instalação hidráulica e em 65% da parte elétrica
A Patriani lista outros três empreendimentos como “prontos para morar”:
- Mirai Suzano Patriani – Suzano;
- Serafina Corporate (laje corporativa) – Santo André;
- Moriah Proença Patriani – Campinas









