
O Banco Central (BC) cortou nesta quarta-feira, 18, a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. Antes de a guerra entre Estados Unidos e Irã começar, era consenso no mercado financeiro que havia espaço para uma redução maior, em 0,50 ponto percentual. Mas as incertezas geopolíticas e, sobretudo, o impacto do conflito no preço do petróleo, fizeram crescer entre os analistas a expectativa de uma posição mais conservadora da autoridade monetária, o que se confirmou agora.
A taxa Selic estava estacionada em 15% desde junho de 2025 e um corte não era realizado há dois anos. A decisão de redução da Selic foi unânime e o BC citou, no comunicado após a decisão, ser necessário adotar “serenidade e cautela” na condução da política monetária, destacando que é preciso novas informações sobre a extensão dos conflitos no Oriente Médio e suas implicações para a inflação – deste modo, sem cravar os próximos passos da Selic.
A autoridade monetária frisou que o ambiente externo tornou-se mais incerto e que os riscos para a inflação, para cima ou para baixo, já se encontravam mais elevados do que o usual e se intensificaram após o início da guerra. Por isso, o BC fala em “início da calibração da política monetária”. Na decisão de janeiro, a autoridade monetária havia usado o termo “flexibilização”.
A Selic é a referência para as demais taxas de juros do mercado, mas a velocidade e intensidade do repasse varia entre as linhas de crédito e de financiamento. Um estudo do BC mostrou que uma queda de 1 ponto percentual da Selic resulta, após 12 meses, em redução de 0,43 ponto percentual no juro do financiamento imobiliário. Em igual comparação, o financiamento de veículos reage de forma mais direta e cairia em 0,75 ponto percentual. A simulação vale qualquer direção da Selic, seja de alta ou de queda.
“Em outras linhas de crédito, o resultado é imediato. Quando cai a Selic, cai na ponta para o consumidor. Mas o crédito imobiliário é um financiamento de longo prazo e as taxas devem se manter praticamente inalteradas, com a desaceleração da economia, a inadimplência subindo e as incertezas eleitorais e no Oriente Médio”, afirma Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor executivo da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).
Além disso, os bancos não necessariamente esperam a confirmação de uma queda da Selic para mexer no custo de compra da casa própria e podem se guiar, como se diz no jargão do mercado, pelas expectativas. Como mostrou o Portas, algumas instituições reduziram levemente o juro do financiamento imobiliário na virada de 2025 para 2026
A influência da Selic no financiamento da casa própria também não é uniforme. Confira:
- No segmento do Minha Casa Minha Vida, com juros subsidiados de acordo com a renda de cada família, o impacto não deve ser sentido – e a perspectiva para o setor já é positiva
- Nos imóveis com valor de até R$ 2,25 milhões, enquadrados no Sistema Financeiro de Habitação (SFH), o juro é de até 12% ao ano desde outubro de 2025 – o que também limita a influência da Selic, ainda em nível maior do que o teto da categoria
- Nos imóveis acima de R$ 2,25 milhões, enquadrados no Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI), a queda da Selic tende a ter um peso maior, uma vez que o juro segue as taxas de mercado do momento
Para o público mais endinheirado, no entanto, o que pode aliviar mais as condições de financiamento é a liberação gradual do compulsório da poupança para o crédito habitacional, após decisão do BC do fim do ano passado, destaca José Urbano Duarte, consultor de empresas do setor imobiliário e ex-vice-presidente de habitação da Caixa Econômica Federal.
“A redução na taxa de juros é importante, mas não vai mexer com o ponteiro da dinâmica de médio e alto padrão. Não deve haver crescimento expressivo deste segmento se comparado com 2025”, afirma o especialista.
Com a temporada de balanços financeiros na reta final, um dos sinais de alerta que fica para 2026 é o aumento dos estoques no alto padrão. “Não vemos a queda do juro como grande gatilho para condições de financiamento em geral, até porque o mercado já está bem aquecido com a Selic na máxima. E também não vemos como isso possa alterar materialmente os resultados que as empresas do setor já estão entregando”, afirma Malek Zein, analista da Suno Research.
Portabilidade e refinanciamento
Para os consumidores que já estão com um financiamento habitacional em andamento, a queda da Selic pode ser uma oportunidade de estudar a portabilidade de crédito, se outra instituição tiver condições mais vantajosas. Entenda como funciona.
Outra possibilidade é usar o imóvel como garantia para uma operação de refinanciamento, diminuindo o custo de uma dívida mais cara. “Em ciclos de queda de juros, tende a crescer o interesse por refinanciamento de imóvel. Clientes que contrataram crédito em momentos de juros altos passam a buscar condições melhores”, afirma Rodrigo Cezaretto Marques, diretor de operações FinanZero, plataforma que faz a intermediação de operações de crédito entre instituições financeiras e consumidores.







