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Veja o resumo da notícia

  • Incorporadoras estão repensando o planejamento de áreas de lazer infantil em empreendimentos imobiliários.
  • Pesquisas mostram que, apesar do contato com telas, brincadeiras ao ar livre são valorizadas por pais.
  • Playgrounds continuam presentes, mas são integrados a brinquedotecas e áreas verdes, otimizando o espaço.
  • O tamanho e a variedade dos espaços infantis variam conforme o padrão do condomínio e o orçamento disponível.
  • Espaços de lazer infantil podem influenciar a decisão de compra de famílias, mas não são o único fator decisivo.
  • A segurança e a organização dos playgrounds exigem atenção na escolha dos materiais e regras claras de uso.
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Projeto de playground em área externa de prédio da Inkkorp em Jundiaí

A exposição às telas faz parte da rotina de muitas crianças, mas os espaços de brincadeira ao ar livre continuam presentes nos empreendimentos imobiliários. O que vem mudando é a forma como as incorporadoras planejam essas áreas, que podem reunir playgrounds, brinquedotecas e outros ambientes de lazer. 

Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, realizada em parceria com o Datafolha em abril de 2025, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos e 94% daquelas de 4 a 6 anos tinham contato diário com telas. Ao mesmo tempo, metade dos entrevistados apontou as brincadeiras ao ar livre e a atividade física como algumas das melhores formas de as crianças passarem o tempo.

Os números ajudam a entender por que o lazer infantil continua no radar das incorporadoras. A mudança mais perceptível, segundo as empresas ouvidas pelo Portas, não é o desaparecimento do playground tradicional, mas a maneira de planejar o lazer infantil. Em vez de ficar restrito a um canto do térreo, como muitas vezes acontecia, ele pode dividir espaço com brinquedotecas, áreas verdes, piscinas infantis e ambientes de convivência.

E, assim como vários outros equipamentos disponíveis nos projetos, o que vai determinar o tamanho, os equipamentos e a integração do playground com as demais áreas comuns são o espaço disponível no terreno, o orçamento da obra e o padrão do condomínio.

Essa tendência já havia sido detectada por uma pesquisa da Loft realizada em 2024 com 1.722 moradores de Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Ela identificou que 65% dos entrevistados deram nota 4 ou 5, em uma escala de 1 a 5, ao desejo de ter playground no imóvel ideal. Entre as pessoas de 25 a 34 anos, o percentual chegou a 73,4%. 

O playground nos diferentes padrões 

Nos empreendimentos de entrada, geralmente voltados ao mercado popular, o tamanho do terreno e os custos ajudam a definir quais equipamentos podem ser instalados. Mesmo com essas limitações, empresas do segmento afirmam que o playground continua presente nos projetos. 

Na MRV, por exemplo, a área externa de brincar permanece entre os espaços mais utilizados pelos moradores, segundo Carolina Zampier Montenegro Simões, gerente de produtos da incorporadora. 

Nos últimos cinco anos, a empresa criou o playbaby, voltado às crianças menores, implantou miniquadras de futebol em empreendimentos com áreas reduzidas e revitalizou o espaço kids coberto. “Em termos de relevância, não houve espaços que deixaram de ser oferecidos ou que perderam importância”, afirma Carolina. 

A executiva acrescenta que o playground costuma ser preservado mesmo quando é preciso simplificar o projeto. 

“Mesmo nos empreendimentos de entrada, o playground é considerado um item essencial e, por isso, não costuma estar entre as primeiras opções quando há necessidade de reduzir ou simplificar o projeto”

Carolina Zampier Montenegro Simões, gerente de produtos da MRV

A Plano&Plano também mantém playground e brinquedoteca em todos os lançamentos de 2025 e 2026, de acordo com Luciana Vieira, superintendente de incorporação. Em terrenos menores, a solução pode passar por integrar o lazer infantil às outras áreas comuns, em vez de reservar ambientes isolados para cada atividade. 

“A principal mudança é que o lazer infantil deixou de ser um equipamento isolado no canto do térreo e passou a fazer parte da vida do condomínio”

Luciana Vieira, superintendente de incorporação da Plano&Plano

Essa configuração permite que as crianças brinquem perto de outros espaços de convivência, enquanto os adultos utilizam as áreas comuns. A proposta, segundo a executiva, é dimensionar o ambiente de acordo com as características de cada empreendimento, sem tratar o lazer infantil como um item dispensável. “Nós não enxergamos o lazer infantil como algo a ser cortado, e sim como algo que precisa ser dimensionado para cada projeto”, diz Luciana.

A diferença entre os segmentos também aparece na amplitude do programa de lazer. A Trisul, que atua tanto no mercado econômico quanto no de alto padrão, afirma que mantém espaços infantis nos dois tipos de empreendimentos.

O que muda é a quantidade de ambientes, a variedade de atividades e o grau de detalhamento do projeto. Segundo Victor Saad, diretor comercial e de marketing da incorporadora, o lazer infantil não costuma ser o primeiro item a ser retirado quando é preciso ajustar o projeto.

“Ele [lazer infantil] está presente tanto nos empreendimentos econômicos quanto nos de alto padrão. A diferença está na amplitude do programa”

Victor Saad, diretor comercial e de marketing da Trisul

Nos condomínios de padrão mais elevado, a estrutura pode incluir ambientes separados por faixa etária, espaços para adolescentes, brinquedotecas temáticas e áreas de brincar integradas ao paisagismo. 

Um exemplo citado por ele é o GranOscar Ibirapuera, empreendimento de alto padrão localizado na zona sul da cidade de São Paulo. O projeto conta com espaço teens, voltada a adolescentes, brinquedoteca, gourmet kids, quadra recreativa e playground integrado ao bosque. 

Já André De Marchi, diretor de incorporação da Benx, incorporadora que atua no mercado voltado à alta renda, afirma que nos empreendimentos em que é necessário otimizar custos ou aproveitar melhor a área disponível, uma saída é reunir atividades em menos ambientes. 

O executivo diz que essa escolha pode resultar na combinação entre playground e brinquedoteca, com uma estrutura mais enxuta do que a encontrada em projetos de padrão superior. 

Entretanto, segundo o executivo, os playgrounds formados apenas por brinquedos metálicos ou módulos padronizados perderam espaço como principal atração infantil, embora continuem presentes nos empreendimentos. 

“Os playgrounds tradicionais, compostos apenas por brinquedos metálicos ou módulos padronizados, perderam protagonismo. Embora ainda existam, deixaram de ser o principal atrativo infantil”

André De Marchi, diretor de incorporação da Benx

A empresa cita como alternativas brinquedotecas multifuncionais, ambientes temáticos, playgrounds de aventura, elementos naturais e áreas flexíveis para oficinas, atividades monitoradas e eventos. O projeto pode incorporar caminhos, estruturas para escalar, cabanas, túneis, circuitos sensoriais, brinquedos de madeira e elementos de paisagismo interativo. 

A proposta é que o ambiente ofereça diferentes possibilidades de brincadeira, em vez de se limitar a um conjunto fixo de equipamentos. O desenho também precisa considerar a faixa etária das crianças, a circulação e a relação entre os espaços.

Em alguns casos, como no Parque Global, empreendimento de alto padrão da Benx localizado às margens da Marginal Pinheiros, em São Paulo, o conceito de clube também é aplicado para as áreas infantis e infantojuvenis. Entre as várias atividades disponíveis, como escorregador coberto, espaço para teatro e brinquedoteca, também foi instalada uma pista de boliche que pode ser utilizada por crianças. 

Do playground tradicional aos espaços integrados 

Na Unacorp, o CEO Francisco Boni chama de “playground residual” a área em que os equipamentos são simplesmente instalados em um espaço delimitado, sem uma relação planejada com o restante do condomínio. 

Em empreendimentos como o Lurie Itaim, no Itaim Bibi, na zona sul da cidade de São Paulo, a empresa buscou aproximar o playground, a brinquedoteca e o paisagismo.

“A principal transformação é que os playgrounds deixam de ser áreas desconectadas do restante do projeto para se tornarem parte do desenho de convivência”

Francisco Boni, CEO da Unacorp

A Inkkorp, que assumiu projetos da Patriani, segue uma linha semelhante. Segundo Vanessa Targino, diretora comercial e de incorporação da empresa, a mudança está menos na substituição de um equipamento específico e mais na maneira como o lazer infantil é planejado. 

Nos empreendimentos Epic e Mistral, ambos em Jundiaí, no interior paulista, a empresa reúne playground, brinquedoteca e piscina infantil em um conjunto que também inclui áreas esportivas e de convivência. 

A intenção, segundo a executiva, é a de permitir que o espaço infantil faça parte do programa de lazer, sem ficar isolado das demais atividades. Já nos projetos de padrão mais elevado, a Inkkorp diz que a prioridade é planejar melhor os ambientes e conectá-los ao restante do condomínio, em vez de simplesmente aumentar o número de equipamentos. 

“O foco está menos na quantidade de equipamentos e mais na criação de espaços bem planejados, funcionais e integrados ao restante do condomínio”

Vanessa Targino, diretora comercial e de incorporação da Inkkorp

A integração, no entanto, não elimina a necessidade de diferenciar os ambientes conforme a idade. Crianças pequenas, por exemplo, têm necessidades distintas das de crianças maiores e adolescentes, explica a executiva. Por isso, alguns projetos combinam áreas abertas, brinquedotecas e espaços específicos para diferentes fases da infância.

O espaço infantil ajuda a vender um imóvel? 

Ter playground no condomínio pode pesar na escolha de uma moradia, sobretudo para famílias com crianças ou que pretendem ter filhos. Mas a importância desse item varia de acordo com o perfil do comprador e não significa que ele seja, isoladamente, o fator decisivo da compra. 

Na pesquisa da Loft realizada em 2024, 65% dos entrevistados deram nota 4 ou 5 ao desejo de ter playground no imóvel ideal. Entre os moradores de 25 a 34 anos, a proporção chegou a 73,4%. 

O levantamento também perguntou sobre a importância de ter espaço para lazer na escolha de um imóvel. Nesse caso, 16,3% dos entrevistados citaram o critério, que reunia salão de festas, churrasqueira e playground. Entre as pessoas de 25 a 34 anos, o percentual foi de 21,2%. 

Entretanto, esse segundo indicador se refere ao conjunto de áreas de lazer, e não exclusivamente ao playground. 

A Benx afirma que os espaços voltados às crianças podem influenciar as visitas e a decisão de compra em empreendimentos destinados a famílias. Segundo De Marchi, a empresa leva em conta comentários de clientes, conversas nos estandes de vendas e a percepção das equipes comerciais. 

Na avaliação da incorporadora, quando o comprador tem filhos ou planeja ter, a estrutura de lazer infantil pode ajudar a tornar o empreendimento mais atraente. Isso não significa que o playground determine a compra. Localização, planta, preço e condições de pagamento ainda pesam mais na decisão.

Saad, da Trisul, diz que os espaços voltados às crianças raramente são o fator decisivo sozinho. Avaliação semelhante tem a Inkkorp. Segundo Vanessa, o espaço infantil integra a avaliação do imóvel, mas seu peso depende das necessidades de cada família. 

Os dados sobre a presença e o uso desses ambientes também mostram que ter playground não significa necessariamente utilizá-lo com frequência. Em levantamento realizado recentemente sobre áreas de lazer em condomínios, a Brain Inteligência Estratégica detectou que 23% dos entrevistados disseram ter playground no prédio, mas apenas 5% citaram esse espaço entre as áreas de lazer que mais utilizavam. 

Os resultados não são diretamente comparáveis aos da pesquisa da Loft, pois os levantamentos investigaram aspectos diferentes e em anos distintos. Em conjunto, porém, ajudam a separar três questões: o desejo de ter playground, a existência do espaço no condomínio e sua utilização no dia a dia. 

Como manter o playground seguro e organizado 

A concepção do espaço é apenas uma parte do trabalho. Depois da entrega do empreendimento, a conservação dos brinquedos, a organização dos ambientes e a escolha dos materiais também influenciam o uso cotidiano. 

O síndico profissional João Xavier, da Atma Consultoria Imobiliária, que atua na gestão de condomínios de médio e alto padrão, diz ter percebido evolução no decorrer dos anos na maneira de como os espaços infantis são planejados e equipados. 

Segundo ele, esses espaços evoluíram para melhor, já que agora há mais atenção à adequação dos brinquedos à idade das crianças e aos riscos envolvidos.

7 Dicas para manter espaços infantis no condomínio

Orientações práticas de segurança, manutenção preventiva e convivência em playgrounds e brinquedotecas.

REGRA MANDATÓRIA DE SUPERVISÃO: 0 A 12 ANOS

Crianças nesta faixa etária não devem permanecer desacompanhadas nos espaços.

Presença de pais ou responsáveis prevista em regulamento interno para prevenir quedas e acidentes.

1
Fixe brinquedos e casinhas na parede Estruturas rígidas e cozinhas de brinquedo devem ser parafusadas para evitar tombamento ou transporte pelas crianças.
2
Filtre peças pequenas e materiais tóxicos Jogos e itens soltos devem respeitar a faixa etária para evitar risco de asfixia, peças pesadas ou componentes alergênicos.
3
Exija supervisão ativa de responsáveis O monitoramento presencial dos pais reduz drasticamente o mau uso dos equipamentos e episódios de quedas.
4
Manutenção preventiva rotineira Cuidado “mais trabalhoso que custoso”: vistorias frequentes identificam trincas, pontas soltas e parafusos antes que virem risco.
5
Regras de convivência bem visíveis Afixe cartazes no ambiente orientando sobre o recolhimento dos brinquedos e o descarte correto de lixo após as brincadeiras.
6
Respeite as especificações dos fabricantes Siga as instruções técnicas de instalação, limites de peso e certificações dos brinquedos adquiridos.
7
Tecnologia na gestão (câmeras e app) Câmeras ajudam a apurar desgaste natural versus mau uso; o app do condomínio organiza agendamentos em dias de pico.
Fonte: João Xavier, síndico profissional da Atma Consultoria Imobiliária

Ainda assim, Xavier recomenda atenção a peças pequenas, que podem ser engolidas, materiais que possam causar alergias ou intoxicações e objetos pesados que ofereçam risco de queda. Brinquedos de montar, por exemplo, devem ter peças compatíveis com a faixa etária a que se destinam. 

No caso de casinhas e cozinhas de brinquedo, a estabilidade também merece cuidado. “Se forem rígidos, devem ser fixados na parede para evitar que a criança transporte e se machuque”, diz. 

As regras de uso precisam ser claras para moradores e responsáveis e seguir as regras previstas na convenção e no regulamento interno do condomínio. Nos condomínios administrados por ele, por exemplo, as normas determinam que crianças de 0 a 12 anos não permaneçam sozinhas no playground ou na brinquedoteca. 

A manutenção também exige rotina. Para Xavier, os cuidados não precisam representar necessariamente um gasto elevado, mas dependem de acompanhamento. “Não é tão oneroso, porém, é mais trabalhoso do que custoso”, diz. 

Segundo ele, problemas de organização costumam aparecer no dia a dia, com brinquedos que não são devolvidos ao seu devido lugar, objetos espalhados e sujeira deixada após o uso. 

Inspeções frequentes ajudam a identificar equipamentos danificados e a evitar que pequenos problemas se tornem riscos. O síndico profissional recomenda escolher brinquedos adequados à idade, observar as orientações de segurança dos fabricantes, manter as regras visíveis e fazer manutenção preventiva. 

Câmeras podem ajudar a esclarecer situações de mau uso ou desgaste natural, enquanto aplicativos de condomínio permitem organizar horários de utilização quando há muita procura pelos espaços, diz Xavier.

Clayton Freitas

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.

Clayton Freitas é jornalista há mais de 20 anos, com atuação em cidades, negócios, economia e mercado imobiliário. Já teve passagens por veículos como Forbes, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Veja São Paulo. É colaborador do Portas.