Veja o resumo da notícia
- A CBIC solicitou ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central o adiamento da entrada em vigor do novo modelo do SBPE para 2028.
- A entidade defende a manutenção do teto de juros de 12% ao ano e o aumento da fatia de recursos para financiamento residencial.
- O novo modelo do SBPE, anunciado em outubro de 2025, reduz a dependência da poupança e amplia o uso de capital de mercado.
- A CBIC argumenta que juros altos e a redução da capacidade financeira da classe média dificultam o acesso ao financiamento imobiliário.
- O Banco Central e o Ministério da Fazenda analisam os impactos e consideram ajustes antes da implementação das novas regras.

A CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) elaborou um pedido formal ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central para adiar o período de testes do novo modelo do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) em um ano. Pelas regras em vigor atualmente, a entrada em vigor integral está marcada para 1º de janeiro de 2027. A entidade pede para que ela vigore apenas a partir de de janeiro de 2028.
“A preocupação da CBIC é que a transição ocorra de forma segura e gradual, especialmente diante do atual cenário de juros e das dificuldades de acesso ao financiamento enfrentadas pela classe média”
Eduardo Aroeira, presidente da CBIC
Para quem compra um imóvel, o temor é que juros acima de 12% ao ano deixem o financiamento mais caro, aumentando o valor das parcelas. Para o mercado imobiliário, a situação pode elevar custos e reduzir as vendas.
Procurados na manhã desta quarta-feira (29) para comentar o assunto, o BC e o Ministério da Fazenda não haviam respondido aos pedidos de informação até a conclusão deste texto.
A CBIC também defende a manutenção do teto de juros do financiamento imobiliário de 12% ao ano e propõe elevar de 80% para 90% a fatia dos recursos direcionada ao financiamento residencial, deixando 10% para outras operações imobiliárias.
Pela estimativa da própria CBIC, a mudança colocaria R$ 75 bilhões a mais no mercado para financiamentos com taxas de até 12% ao ano, em imóveis de até R$ 2,25 milhões.
O que é o SBPE e o que muda em 1º de janeiro
O SBPE é o sistema que usa o dinheiro da caderneta de poupança para financiar imóveis. Hoje, os bancos são obrigados a destinar 65% do saldo da poupança ao crédito habitacional, segundo o Banco Central.
O que a CBIC quer mudar no novo SBPE
O novo modelo, anunciado em outubro de 2025, reduz a dependência da poupança e amplia o uso de dinheiro captado no mercado, por meio de títulos como as letras imobiliárias, que são papéis que os bancos vendem a investidores para levantar recursos. Ele prevê que 80% dos recursos sejam destinados a operações do SFH (Sistema Financeiro da Habitação).
Durante o Abecip Summit 2026, realizado em agosto deste ano pela, Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa Econômica Federal, disse que os modelos históricos do FGTS e SBPE atualmente eram insuficientes.
Desde o fim de 2025, o Banco Central testa o formato. Os 5% do saldo da poupança, que antes ficava recolhido como compulsório, passou a ser usado em operações no novo modelo.
Em 18 de agosto, o diretor de Regulação do BC, Gilneu Vieira, disse que a trajetória de queda das concessões observada em 2025 foi interrompida, com alta nos financiamentos de imóveis de até R$ 1 milhão e na faixa entre R$ 1 milhão e R$ 2,25 milhões, segundo o InfoMoney.
Ele afirmou ainda que, desde outubro de 2025, imóveis acima de R$ 2,25 milhões passaram a ter taxas maiores que as dos imóveis de até R$ 1 milhão, o oposto do que ocorria nos dez anos anteriores.
Por que o setor pede mais tempo
Segundo a CBIC, entre janeiro e julho deste ano os financiamentos do SBPE para aquisição e construção somaram R$ 115,5 bilhões, alta de 36% sobre os R$ 84,8 bilhões do mesmo período de 2025. As unidades financiadas passaram de 246,4 mil para 337,8 mil, alta de 37%.
Como funciona o novo modelo do SBPE
- Poupança é uma das principais fontes do crédito imobiliário
- 65% do saldo da poupança deve ser direcionado ao crédito habitacional
- Menor dependência da poupança
- Bancos passam a captar mais recursos no mercado (entre as fontes estão letras imobiliárias)
- 80% dos recursos devem ir para operações do SFH
5% do saldo da poupança que ficava no compulsório passou a ser usado no novo modelo.
Na compra de imóveis, o volume subiu 18%, de R$ 69,2 bilhões para R$ 81,7 bilhões. Na construção, mais que dobrou: de R$ 15,6 bilhões para R$ 33,8 bilhões, num avanço de 117%.
A entidade também informou que foram usados R$ 9,84 bilhões em recursos de tesouraria, número que apresenta como evidência de que o novo modelo funciona.
O argumento central, porém, é a classe média, que concentra 61% da oferta final de imóveis no país, segundo dados apresentados pela CBIC nas reuniões.
Para Ely Wertheim,vice-presidente da Comissão da Indústria Imobiliária da entidade, anos de juros altos reduziram a capacidade financeira dessas famílias e dificultam a venda desses imóveis. Com isso, segundo ele, houve um agravamento muito grande da situação da classe média.
Aroeira também relaciona o problema ao comprometimento do orçamento das famílias. Segundo ele, a combinação de juros elevados por um período prolongado e a redução da capacidade financeira tem dificultado o acesso da classe média ao financiamento imobiliário.
A CBIC não apresentou, nas reuniões, dados específicos que permitam quantificar o impacto desse cenário sobre os distratos, segundo o executivo. O principal ponto levado aos encontros, segundo ele, foi a necessidade de preservar e ampliar as condições de financiamento para esse público.
O teto de 12% e o custo do dinheiro
O teto de 12% ao ano é o limite de juros nos financiamentos do SFH (Sistema Financeiro da Habitação). O ponto sensível é que o novo modelo depende mais de dinheiro captado no mercado, cujo custo acompanha os juros de longo prazo (a chamada curva de juros), e não mais da poupança, que remunera abaixo do mercado. Esse custo está sujeito à volatilidade, comum nas operações desse tipo.
Para Aroeira, a manutenção do teto de 12% ao ano é importante para preservar as condições de acesso ao financiamento habitacional, sobretudo para a classe média, num cenário de juros elevados. “Esse foi um dos principais pontos defendidos pela entidade nas reuniões”, disse.
Por que a CBIC quer mais tempo para testar o modelo
Juros altos reduzem a capacidade de financiamento das famílias.
A classe média representa 61% da oferta final de imóveis, segundo a CBIC.
- Custo do dinheiro e volatilidade: O novo modelo depende mais de recursos captados no mercado, cujo custo acompanha os juros de longo prazo.
- Teto de 12%: O setor teme que o custo de captação pressione as taxas dos financiamentos.
Ele não está sozinho nesse receio. Em julho, Michel Cury, presidente da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) disse ao InfoMoney que o teto de 12% era uma preocupação do setor. O motivo é que as operações de crédito no mercado podem ultrapassar o teto de 12%.
Reportagem do jornal Folha de S.Paulo de 18 de agosto apontou que o novo modelo pode aumentar a pressão sobre os juros cobrados dos compradores em períodos de taxas elevadas. Segundo a publicação, carteira de crédito imobiliário do SBPE chegou a R$ 601 bilhões, o equivalente a 121% dos recursos direcionáveis da poupança, o que indica que os bancos já recorrem a outras fontes. Ainda segundo a Folha, o BC manterá o modelo sob avaliação e poderá fazer ajustes durante a implementação.
O que respondem Fazenda e Banco Central na reunião
Segundo a CBIC, a Secretaria de Reformas Econômicas (SRE) da Fazenda avaliou que o financiamento imobiliário é tema acompanhado pela equipe e que as preocupações do setor serão consideradas. O Banco Central, de acordo com a entidade, analisa os impactos e entende que eventuais ajustes precisam ser definidos antes da entrada em vigor das novas regras.
Questionado sobre os próximos passos, Aroeira afirmou que o encontro teve como objetivo apresentar as propostas da CBIC e aprofundar o diálogo técnico sobre o novo modelo. “A entidade seguirá acompanhando o tema e mantendo o diálogo com os órgãos responsáveis ao longo da transição do modelo”, diz o executivo.







