Veja o resumo da notícia
- Balanços do 4º trimestre de 2025 de construtoras listadas revelam bons resultados, com resiliência no Minha Casa Minha Vida e atenção ao estoque no médio/alto padrão.
- Analistas apontam desaceleração no setor, exceto na baixa renda, com VSO indicando vendas mais lentas e estoques maiores na alta renda, gerando preocupação.
- Redução da Selic é vista como insuficiente para mudar perspectivas para 2026, enquanto empresas como Cyrela, Tenda e MRV apresentam resultados diversos.
- Direcional e Cury destacam-se no MCMV, Eztec reverte queima de caixa, e Moura Dubeux cresce no Nordeste, enquanto Trisul enfrenta rentabilidade pressionada.
- Mitre planeja entrada no MCMV e Plano&Plano reporta balanço sólido, com analistas mantendo cautela nas projeções para o setor em geral.

As construtoras e incorporadoras listadas em Bolsa de Valores mostraram nas últimas semanas seus balanços referentes ao quarto trimestre de 2025. No geral, apresentaram bons resultados financeiros. Para as companhias que operam no Minha Casa Minha Vida, a resiliência de vendas e lançamentos segue como marca do segmento. Nos imóveis de médio e alto padrão, já aparecem alguns sinais de preocupação, sobretudo com o aumento de estoques.
Esses resultados são importantes tanto para quem investe no mercado de ações quanto para trazer um termômetro do setor imobiliário para o restante de 2026.
“Os empreendimentos têm mostrado números bons, margem bruta elevada, inadimplência baixa, a qualidade daquilo que foi vendido é boa, mas o setor já mostra uma desaceleração. Isso não necessariamente vale para a baixa renda. Neste segmento, observamos crescimento de lançamentos e vendas em patamar bastante saudável, em nível bem mais resiliente”, afirma Malek Zein, analista da Suno Research.
Com os resultados da Cyrela, divulgados na quinta-feira, 19, a temporada de balanços do setor está praticamente encerrada – resta a Even, cujo desempenho no período será conhecido no dia 23.
De 10 companhias analisadas pelo Portas, apenas duas não registraram aumento do lucro líquido no quarto trimestre do ano passado – e houve reversão de prejuízo para lucro, como mostraram os números da MRV.
A última linha de um balanço, no entanto, é um resumo do passado. Para traçar a perspectiva à frente e entender a saúde financeira de uma companhia, existem outras métricas úteis, como geração de caixa, caso da Eztec. A companhia mostrou queda no lucro, mas reverteu a queima de caixa observada no último trimestre de 2024.
Outro dado relevante é a Venda Sobre Oferta (VSO), um modo de acompanhar como as companhias estão equilibrando lançamentos e vendas. “Praticamente todas as empresas mostraram uma venda mais devagar. Na alta renda, os estoques estão subindo, o que é uma preocupação. A gente pode estar entrando em um momento de virada de ciclo, e este segmento de alta renda requer mais atenção”, explica Zein, da Suno.
Em relatório do início do mês, o BTG Pactual chamou atenção para este fato, analisando os dados disponíveis naquele momento, até 19 de dezembro de 2025. De acordo com os analistas da instituição financeira, os estoques das empresas listadas em Bolsa representam 8 meses de vendas no segmento de baixa renda, mas atingiram 21 meses de vendas no segmento de média renda e 18 no segmento de alta renda.
Foram captados dados de empresas de capital aberto com forte atuação na cidade de São Paulo – Cyrela, Lavvi, Eztec, Even, Trisul, Helbor e Mitre. “Os estoques no segmento de média/alta renda (em meses de vendas) se deterioraram para a maioria das empresas em 2025, embora ainda permaneçam em níveis controlados para a maioria delas”, destaca a análise do BTG Pactual assinada por Gustavo Cambauva, Gustavo Fabris e Luis Moll.
A redução da taxa Selic, para 14,75% ao ano, melhora o ambiente para crédito, compras e investimentos, mas o setor avalia a queda como insuficiente para mudar as perspectivas para 2026.
Veja a seguir como foi o resultado financeiro das principais incorporadoras e construtoras
Cyrela: Lucro Cresce 37%, mas Analistas Mantêm Cautela nas Projeções
O lucro da Cyrela cresceu 37% no quarto trimestre em relação a um ano antes, para R$ 682 milhões. Segundo relatório de analistas do Citi, foi um resultado acima do esperado, com o melhor desempenho da receita compensando a queda de margens, mas que não deve se repetir. “Portanto, não prevemos revisões para cima das projeções de lucro para o ano”, dizem.
Tenda (MCMV): Forte Expansão do Lucro Líquido com Resiliência de Vendas
Com forte atuação no Minha Casa Minha Vida, a construtora Tenda aumentou o lucro líquido no quarto trimestre e no consolidado de 2025, para R$ 104,6 milhões e R$ 505,7 milhões, respectivamente. A operação principal da companhia compensou o fraco desempenho da subsidiária Alea, de casas pré-fabricadas.
“Acreditamos que a Tenda continua em um caminho de crescimento consistente, com forte expansão do lucro líquido ano a ano, apesar de um cenário ainda desafiador para a Alea”, afirma relatório de analistas da XP Investimentos.
MRV Reverte Prejuízo no Brasil, mas Operação nos EUA (Resia) Amplia Perdas
No grupo MRV, a incorporação melhorou o desempenho no quarto trimestre, revertendo prejuízo de R$ 153,7 milhões um ano antes para lucro de R$ 116,6 milhões. O que ainda pesa no balanço é a operação americana Resia, voltada ao segmento multifamily nos Estados Unidos, e que ampliou o prejuízo ao longo de 2025, com revisão no valor de ativos (impairment).
A MRV apresentou a investidores planos que, se confirmados, podem aumentar o lucro e a geração de caixa. “A companhia conseguiu reduzir um pouco da alavancagem (endividamento). É evidente que os números estejam melhorando, mas ainda é um turnaround (mudança de situação) em desenvolvimento”, afirma Zein, da Suno Research.
Direcional: Crescimento Consistente Ancorado pelo Minha Casa Minha Vida
A companhia teve mais um trimestre positivo, também ancorada pelo Minha Casa Minha Vida. No quarto trimestre de 2025, o lucro líquido foi de R$ 211 milhões, alta de 28% em relação ao mesmo período do ano passado. A companhia superou “estimativas ousadas” de analistas do Santander.
Cury: Lucro Líquido Cresce 63% e Supera Consenso do Mercado
A Cury reportou um crescimento de 63% do lucro na comparação anual, mostrando mais um conjunto de resultados sólidos no fim de 2025, afirmam os analistas do Citi.
“O lucro líquido de R$ 270 milhões ficou em linha com nossa previsão, mas 5% acima do consenso de mercado, impulsionado por uma receita ligeiramente maior, melhor margem bruta e menores despesas administrativas e gerais”, diz o banco.
Eztec: Lucro Cai, mas Geração de Caixa é Revertida com Controle de Custos
O lucro líquido da Eztec caiu 7,2% entre o fim de 2024 e 2025, para R$ 117,5 milhões, mas o resultado veio melhor do que o esperado pelo mercado. A companhia fechou o trimestre com geração de caixa de R$ 17,5 milhões, revertendo a queima de R$ 185,4 milhões registrada um ano antes.
“A administração da companhia destacou que 67% dos projetos entregues em 2025 foram concluídos com custo inferior ao orçamento inicial, reforçando a disciplina de execução e o controle de custos”, afirmam, em relatório, analistas do Citi.
Moura Dubeux: Lucro Aumenta 150% com Atuação Focada no Nordeste
A incorporadora Moura Dubeux viu o lucro líquido aumentar quase 150% entre o quarto trimestre de 2024 e igual período do ano passado, para R$ 111,9 milhões. O banco Santander vê uma perspectiva positiva para as ações da companhia, pela combinação entre forte posição competitiva no mercado do Nordeste; crescente exposição ao Minha Casa no Nordeste; e valor de mercado (valuation) competitivo.
Trisul: Lucro Cai 13% em Trimestre de Rentabilidade Pressionada
A Trisul reportou lucro líquido de R$ 63,1 milhões no quarto trimestre, queda de 13,1% na comparação anual. “Consideramos os resultados da Trisul fracos. Em nossa opinião, o trimestre foi marcado por rentabilidade bruta pressionada devido a um mix mais fraco e resultados financeiros abaixo das nossas expectativas, amplificados por participações minoritárias e despesas gerais e administrativas mais elevadas”, afirmam analistas da XP Investimentos.
Mitre: Lucro Sobe 25% e Companhia Anuncia Plano de Entrada no MCMV
A incorporadora Mitre encerrou o quarto trimestre com lucro líquido de R$ 23,5 milhões, crescimento de 25,3% em relação ao mesmo período de 2024, apesar da queda de 10,3% na receita líquida, que somou R$ 315,5 milhões. Um dos objetivos para 2026 é entrar no Minha Casa, segundo informou o Valor Econômico.
Plano&Plano: Lucro com Alta de 39% e Balanço Patrimonial Sólido (Caixa Líquido)
A construtora e incorporadora Plano&Plano registrou lucro líquido de R$ 143,8 milhões no quarto trimestre de 2025, alta de 39% na comparação com o mesmo período de 2024, desempenho considerado “ligeiramente positivo” pela XP Investimentos, uma vez que houve compressão da margem bruta.
“A combinação da melhoria do ROE [rentabilidade] com um balanço patrimonial sólido (agora com caixa líquido) reforça nossa opinião de que os lucros devem se fortalecer gradualmente à medida que as margens brutas melhoram e a alavancagem operacional continua a se desenvolver”, destaca relatório da XP.







