
Felipe Morgado
VP Comercial
O mercado imobiliário atravessa um momento de pressão, mas as notícias mais recentes também revelam uma oportunidade para quem tem capital e capacidade de esperar. Duas reportagens publicadas nesta semana pelo Portas ajudam a ilustrar esse movimento: “Desconto médio na venda de imóveis sobe e bate recorde, aponta FipeZap”, publicada em 18 de agosto de 2026, e “Distratos imobiliários sobem 28% no 1º semestre; veja as construtoras mais afetadas”, publicada em 19 de agosto de 2026.
As duas notícias, quando analisadas em conjunto, mostram um mercado em que a oferta tende a aumentar justamente em um momento de demanda mais fraca. E essa combinação, embora negativa para quem precisa vender rapidamente, pode criar uma janela interessante para quem está capitalizado e procura comprar bons imóveis por preços mais atrativos.
O primeiro fator é o crédito. A expectativa de queda mais acentuada dos juros não se confirmou na velocidade esperada. Com a Selic ainda em patamar elevado, o custo do financiamento permanece alto e o acesso ao crédito continua mais restritivo. Isso reduz a capacidade de compra de parte das famílias e, consequentemente, diminui a pressão da demanda sobre os preços.
O aumento dos descontos é um dos sinais mais claros desse movimento. Quando o comprador tem menos capacidade financeira e mais alternativas disponíveis, o poder de negociação muda de mãos. O preço anunciado deixa de ser necessariamente o preço final da transação, abrindo espaço para negociações mais agressivas.
Os distratos acrescentam uma segunda camada a esse cenário. O aumento dos cancelamentos significa que imóveis que haviam sido vendidos podem voltar ao mercado. Para as incorporadoras, isso representa estoque adicional em um ambiente de juros elevados, custo financeiro relevante e demanda mais seletiva. A consequência pode ser uma pressão maior para acelerar vendas e liquidar unidades, inclusive por meio de descontos e condições comerciais mais competitivas.
É justamente a combinação desses fatores que merece a atenção dos investidores. Mais distratos, mais estoque; menor demanda, maior poder de negociação. Em determinadas situações, isso pode criar oportunidades que não estavam disponíveis em um mercado mais aquecido.
Para as imobiliárias, essa mudança de cenário também traz uma oportunidade comercial. Em vez de interpretar a desaceleração apenas como uma dificuldade para vender, é possível reposicionar o discurso para o comprador que possui recursos e está disposto a aproveitar momentos de maior assimetria entre oferta e demanda.
O corretor pode ajudar esse cliente a identificar imóveis que tenham fundamentos sólidos, avaliar descontos efetivamente praticados e separar uma oportunidade real de uma simples redução de preço de um ativo pouco atrativo. Em momentos como este, informação e capacidade de negociação passam a valer ainda mais.
O cenário não é animador para todos os participantes do mercado. Mas, para quem tem liquidez, horizonte de longo prazo e capacidade de escolher, momentos de oferta elevada e demanda mais fraca podem ser justamente aqueles em que surgem as melhores oportunidades de entrada.







